Uma funcionária graduada do governo deposto de Honduras, a ex-vice-chanceler Patricia Valle, afirmou que houve envolvimento de funcionários dos Estados Unidos no golpe de Estado que em 28 de junho afastou o presidente José Manuel Zelaya. Ela disse que o avião que levou Zelaya ao exílio fez uma escala numa base aérea administrada pelos EUA. Militares dos EUA negam as acusações. O governo norte-americano se opôs ao golpe em Honduras e cortou milhões de dólares em ajuda ao governo de facto.

Patricia Valle, que serviu como vice-chanceler do governo Zelaya, afirmou que o avião militar hondurenho que levou o presidente deposto ao exílio parou para reabastecer na base aérea de Soto Cano, também conhecida como Palmerola, em território hondurenho, antes de pousar em San José, na Costa Rica. Ela disse que Zelaya ficou no avião durante o período de reabastecimento. A base de Soto Cano é operada em conjunto por militares hondurenhos e norte-americanos.

Valle disse que a parada em Palmerola mostrou que norte-americanos foram cúmplices, em algum nível, do golpe de Estado de 28 de junho, embora ela não tenha apresentado qualquer prova de que militares dos EUA tenham interagido com hondurenhos no avião, durante a operação de reabastecimento. Valle afirmou não acreditar que funcionários do alto escalão da administração de Obama estejam envolvidos.

Na semana passada, quando visitou o Brasil, Zelaya mencionou suas preocupações à imprensa. “A administração Obama tem sido firme em condenar o golpe e pedir minha restauração. Não vejo razões para acreditar que a administração Obama tenha duas caras”, afirmou ele, em Brasília.

“Agora, existem alguns elementos da Agência Central de Inteligência (CIA) que podem estar envolvidos. Quando eles me levaram de avião à Costa Rica, foi um voo bem curto, mas a aeronave desceu na base aérea de Palmerola para reabastecer. Palmerola é uma base administrada por tropas hondurenhas e norte-americanas. Se é um voo bem curto, de 40 minutos, porque eles pararam para reabastecer em Palmerola?” questionou Zelaya.

Embaixada dos EUA

Militares dos EUA negaram hoje que suas tropas em Honduras tenham tido qualquer conhecimento ou tomado parte do voo que levou o presidente deposto do país centro-americano ao exílio. O porta-voz do Comando Militar Sul dos EUA, Robert Appin, disse que as forças norte-americanas em Soto Cano “não se envolveram no voo que levou o presidente Zelaya à Costa Rica em 28 de junho”. Segundo Appin, as tropas dos EUA na base “não tiveram conhecimento ou tomaram parte nas decisões que autorizaram o pouso, reabastecimento e decolagem” do avião hondurenho.

A base de Palmerola teve um uso intensivo das forças militares norte-americanas durante as guerras da América Central na década de 1980. Atualmente, os EUA mantém 500 soldados e pessoal da força aérea em Palmerola, com a missão de lutar contra o narcotráfico na região.

O governo de facto de Honduras também está irritado com os EUA. O presidente interino Roberto Micheletti manifestou ontem sua raiva com a postura norte-americana sobre o golpe ao dizer esperar que o atual embaixador dos EUA em Honduras, Hugo Llorens, não regresse a Tegucigalpa quando voltar de uma viagem ao exterior. “Eu entendo que ele está de férias, então espero que não volte”, disse Micheletti, em discurso feito a três mil reservistas na cidade nortista de San Pedro Sula. A Embaixada dos EUA afirma que Llorens deixou Honduras em viagem por motivos pessoais e não se retirou do posto.