Foto: Chuniti Kawamura/O Estado

 Secretaria Municipal da Educação está balanceando cardápio. Na Escola Municipal Caramuru há pelo menos três "gordinhos" por sala.

Há algum tempo, a preocupação de toda comunidade escolar em relação à alimentação era a desnutrição. Muitas crianças, principalmente da rede pública, comiam somente o que era fornecido na escola. Já nas particulares, os alunos comiam – sem qualquer restrição ou alerta – toda guloseima vendida nas cantinas. No entanto, hoje o quadro é outro e a preocupação também mudou. As crianças estão cada vez mais obesas e sujeitas a distúrbios nutricionais.

"No geral, o que a gente sabe é que a alimentação do escolar no País não anda bem. Antes preocupava a falta de alimento, hoje é o excesso de consumo de alimentos calóricos. A desnutrição acontece não por falta de alimento, mas por alimentação inadequada, que pode acarretar problemas como obesidade, excesso de colesterol e triglicerídeos no sangue, hipertensão e diabetes. Hoje aparece um grande número de crianças com esses problemas", afirma o assessor técnico do Conselho Federal de Nutricionistas (CFN), Antônio Augusto Fonseca Garcia.

Segundo o nutricionista, é também responsabilidade da escola, além da educação formal, a educação alimentar e nutricional. Felizmente, essa responsabilidade vem sendo assumida não só pelas escolas como pelo poder público, através de programas que induzam crianças ao consumo de alimentos de qualidade. Exemplo são as "Cantinas Saudáveis", que proíbem a venda de frituras e guloseimas.

Também nesse sentido, o governo federal apresenta o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), que cuida da merenda de 35 a 37 milhões de crianças. O País, na educação, passa por uma fase que o profissional chama de "transição nutricional".

Destaque

Regionalmente, os conselhos e a rede municipal também estão em alerta. "O que tenho visto é que Curitiba é a cidade que mais investe em alimentação de qualidade", aponta a nutricionista e professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Carina Biancardi. "Chega-se a investir R$ 40 milhões por ano na alimentação escolar. Essa qualidade é cobrada não só pela Secretaria de Educação como pelo Conselho Regional de Alimentação Escolar, cuja conscientização aumentou recentemente". De acordo com a nutricionista, o cardápio da merenda escolar da rede municipal está sendo sempre revisto e discutido. "A prevalência da obesidade infantil está muito alta. Algumas preparações estão sendo tiradas do cardápio por conta do alto valor calórico, como, por exemplo, a costela", comenta.

Preocupação

"Estamos preocupados com a obesidade, por isso o cardápio é bem balanceado. Estamos tentando também criar hábitos saudáveis nas crianças e não só alimentares", diz o diretor de logística da Secretaria Municipal de Educação, Cilos Vargas. Segundo ele, além do repasse da União para a merenda – R$ 0,18 por criança – o município entra com mais R$ 0,35. Ou seja, R$ 0,53 é o valor médio da merenda, equivalente a um lanche. "São mais de 200 mil refeições por dia, que atendem 167 escolas, 152 centros de educação infantil, fora outros projetos", cita.

Na escola

Na Escola Municipal Caramuru, o lanche da tarde era pão com queijo e suco de fruta, nada muito calórico. No entanto o problema com as calorias existe. Segundo a vice-diretora da escola, Nanci Ferronato, apenas duas famílias das crianças da escola são carentes. "Tem bastante casos de obesidade. Há pelo menos três gordinhos em cada sala", relata Nanci. "A escola não pode ficar alheia a isso", completa a diretora Clarice Otto.

Quem cuida das refeições no Colégio Santa Maria é a nutricionista Lílian Marini. Segundo a profissional, a alimentação inadequada é também uma preocupação nas escolas particulares. "Tem bastante criança com problema de colesterol e triglicerídeos altos. A gente vê isso principalmente nas crianças do turno ampliado, que almoçam na escola", conta. O que falta, segundo ela, é a conscientização em casa. "Há dois anos, quando comecei o trabalho aqui, foi difícil porque os próprios pais pediam para tirar a verdura, porque o filho não come. Melhorou, mas ainda falta mais preocupação. Esses hábitos já vêm desde pequeno. A gente percebe a diferença entre as crianças que estão sendo acompanhadas pelos pais e as que não estão, para aceitar o alimento mais saudável", observa a nutricionista.

Refeição varia conforme o perfil nutricional

De acordo com a nutricionista da Secretaria de Educação de Curitiba, Sirlei Molletta, a legislação exige que o programa de alimentação atenda 15% das necessidades nutricionais diárias da criança, que passa quatro horas na escola. "Fazemos um estudo de perfil nutricional das crianças. As mais carentes têm um tipo de refeição, geralmente as minirrefeições como risoto, polenta. As outras recebem alimentos que não têm tanta rejeição", explica.

Segundo ela, o nível de desnutrição no município está diminuindo. "O que está aumentando é a questão da obesidade. Porém, assim como não conseguimos uma desnutrição com o índice de 15%, também não é possível corrigir a obesidade", constata Sirlei.

Em 2004, das cerca de 80 mil crianças da rede municipal, 3,1% eram desnutridas e 7,4%, obesas. "Este ano ainda não foram fechados os números, mas posso dizer que a desnutrição continua diminuindo e a obesidade aumentando", informa.

De acordo com a nutricionista Simone Camati, o problema é sério, pois é desde criança que se forma o hábito alimentar do adulto. "As crianças comem guloseimas – com conservantes, corantes, flavorizantes – com o objetivo de se alimentar, mas não trazem nada de nutrientes, é simplesmente caloria. Isso pode piorar o rendimento escolar, o humor", alerta.

A responsabilidade recai também sobre os pais. "É uma falta de consciência dos próprios pais, que também têm hábitos inadequados", pondera Simone. Segundo ela, quando isso acontece, a tendência é que os filhos, no futuro, venham a ter problemas, "entre eles todas as doenças da modernidade: ansiedade, depressão, insônia, esses distúrbios mais psicológicos". (NF)

O que a criança deve e o que não deve comer

A nutricionista e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Helena Loureiro, tem algumas dicas do que oferecer para as crianças. "Na faixa etária de um a cinco anos, as crianças estão formando os hábitos alimentares. Elas precisam comer massas, pão, frutas e hortaliças, grãos, laticínios, carnes e ovos e também até duas porções de doces, açúcar e energia", detalha Helena.

Ou seja, as crianças podem comer de tudo, mas o cuidado deve estar no preparo, evitando o excesso de gordura. "Os alimentos devem ser preparados de forma saudável. Também não é recomendado o consumo de refrigerante – é melhor substitui-lo por suco. As bebidas lácteas também são importantes: prefira um leite com fruta, os frapês", sugere a nutricionista.

As bolachas recheadas também não são as mais indicadas. São preferíveis as mais "sequinhas". "Alimentação exige cuidado sempre. Tudo o que for fornecido de forma errada age de maneira negativa, trazendo mais precocemente as doenças degenerativas: problemas ósseos, colesterol alto, diabetes e outras seqüelas, como infarto, hipertensão e o pior", ressalta Helena. (NF)