Réplica de tablete da Criação exposta
no Museu Dr. Paulo Bork do Unasp.

O descobrimento da Biblioteca de Assurbanipal nas ruínas da antiga Nínive, favorecem amplamente a compreensão dos hábitos, organização social, religião e relatos mitológicos da antiga cultura mesopotâmica. Esses vestígios arqueológicos após sua descoberta, efetivada primeiramente por Austen Layard e completada por Hormuzd Rassam (1850-54), foram transportados para a Inglaterra e depositados no Museu de Londres. A gama de documentos encontrados naquele sítio arqueológico, impressionou desde a primeira análise e tradução por apresentar relatos semelhantes ao Gênesis bíblico e predominantemente aos da Criação e Dilúvio.

A primeira interpretação do relato mesopotâmico da Criação foi realizada por George Smith, do Museu de Londres, após traduzir 20 fragmentos de tijolos escritos em linguagem cuneiforme. A descrição desse conteúdo foi dada a conhecer em 1875, em carta enviada ao jornal The Daily Telegraph de Londres. Em 1876, George Smith publicou seu livro The Caldean Account of Genesis, que continha a tradução e comentários de todas as peças por ele identificadas.

Em 1890, Peter Jensen, no seu livro Die Kosmologie der Babylonier, publica uma nova tradução, transliteração e comentários baseados nos documentos de Nínive sobre o relato da Criação. Cinco anos mais tarde, em 1895, Heinrich Zimmerm edita uma nova tradução dos documentos mesopotâmicos vertidos em língua alemã.

No pôr-do-sol do século XIX, em 1900, uma nova obra de Jensen sobre mitos e epopéias assírio-babilônicos dá um toque depurado à tradução, transliteração e comentários sobre o Gênesis mesopotâmico. Em 1902, L. W. King publica em Londres uma obra em dois volumes titulada The Seven Tablets of Creation, traduzindo numerosos fragmentos sobre a Criação, depositados no Museu de Londres. Desta data em diante, muitos autores ficaram responsáveis em difundir o conteúdo sobre a Criação encontrado na Biblioteca de Assurbanipal.

Sete tijolos

O conteúdo dos milhares de tijolos encontrados na Biblioteca de Assurbanipal era variado, porém, providencialmente foram selecionados alguns fragmentos que, unidos, continham o relato da Criação. Os fragmentos recolocados no seu formato original, resultavam em sete tijolos com suas duas faces gravadas com escrita cuneiforme. O menor apresenta 138 linhas escritas, e o maior, 146.

Os temas dos sete tijolos podem ser enunciados na seguinte ordem: o primeiro descreve o caos primitivo; o segundo, o início da luz; o terceiro, a criação do firmamento; o quarto, o aparecimento da terra seca; o quinto, a criação dos luminares; o sexto, a criação do homem; e o sétimo descreve o repouso da divindade. O título do relato é Enuma Elish, palavras iniciais do texto.

Numa descrição sintética, a Criação mesopotâmica contém o seguinte relato: no princípio existia o deus Apsu, personificação masculina das águas frescas das fontes, e Tiamat, personificação feminina das águas salgadas dos abismos. Eles criaram outros deuses, os quais promoveram desordem e caos, razão pela qual Apsu resolve exterminá-los. O deus Ea, conhecedor da intenção de Apsu, mata-o. Tiamat decide vingar a morte do esposo e cria outros deuses formando um exército liderado pelo deus Kingu. O deus Ea, por sua vez, cria Marduk, protetor da Babilônia. As primeiras batalhas favorecem o grupo de Tiamat. Os derrotados, em desespero, proclamam Marduk como rei dos deuses. Em pouco tempo, Marduk vence Tiamat, colocando os deuses vencidos em servilismo, sendo confirmado como “rei dos deuses dos céus e da Terra”.

Marduk então concebe a idéia de um novo céu. Divide Tiamat em duas partes. Com a parte superior cria as estrelas, os grupos de estrelas e também o Sol e a Lua. Com a parte inferior cria o mundo. O deus Kingu é também condenado a morrer. Sua garganta é cortada e, do sangue que jorra, Marduk mistura com barro para criar o homem. Finalmente ocorre o descanso da divindade.

Analogias

Os tijolos encontrados na Biblioteca de Assurbanipal datam do período do seu reinado (668-30 a.C.). A antigüidade do relato da Criação, porém, corresponde a tempos mais remotos. O consenso entre os especialistas é que, graças ao interesse cultural desse governante, foram enviados escribas do império a lugares diferentes para preservar as tradições, ritos religiosos e mitos ancestrais, fornecendo um acervo da mais alta hierarquia à biblioteca do palácio real.

Certa classe de escritores, designados como panbabilonistas, defende ardentemente a idéia de que a religião israelita e os relatos do Gênesis, principalmente a Criação e o Dilúvio, derivam da religião babilônica. O paralelismo do relato mesopotâmico da Criação e o da Bíblia, no entanto conduz a conceitos divergentes do panbabilonismo.

O relato mesopotâmico se baseia num politeísmo exagerado, onde os deuses são seres criados sem atributos de imortalidade. A vivência dessa versão terminou com a extinção do povo que a aceitava. O relato bíblico se baseia num monoteísmo que o intelecto e consciência humanos preservam naturalmente. Deus, na descrição bíblica, É Eterno e Todo-Poderoso para manter a obra da Sua criação.

A versão mesopotâmica aponta, no entanto, uma verdade transcendente, isto é, que o fato da Criação nas culturas que forjaram as civilizações antigas, era uma realidade viva na mente dos homens daquela época. As diferenças dos relatos devem-se ao passo inexorável do tempo, à infidelidade na transmissão oral dos relatos que determinaram as variações do conteúdo, às alterações dos atributos dos personagens e à tergiversação dos propósitos. No tempo devido, Moisés, líder do povo israelita, resgatou a verdade sobre o fato da Criação.

Rubén Aguilar é doutor em História Antiga pela USP, arqueólogo e professor do curso de Teologia no Unasp, Campus Engenheiro Coelho, SP.