Tudo começou na Tunísia, quando Mohamed Bouazizi, de 26 anos e recém-formado na faculdade, ateou fogo em si mesmo durante um momento de desespero após policiais terem confiscado frutas e vegetais que ele estava vendendo. Bouazizi não possuía licença para comercializar os produtos, mas precisava ajudar a sustentar a família. Ele foi enviado para o hospital e enfaixado da cabeça aos pés. O incidente chocou a população local e provocou protestos contra o desemprego que deixaram pelo menos três pessoas mortas.

As manifestações começaram em meados de dezembro na região de Sidi Bouzid, onde vive Bouazizi, logo após sua tentativa de suicídio, e se espalharam para outras partes do país. A polícia abriu fogo em uma das manifestações, matando um jovem de 18 anos. Um homem de 44 anos, que foi atingido por uma bala no mesmo protesto, morreu na sexta-feira no hospital. Em outra manifestação, um jovem de 24 anos foi eletrocutado após anunciar que desejava acabar com a própria vida e subir em um poste de eletricidade de alta voltagem.

Na sexta-feira, advogados fizeram passeatas em diversas cidades em solidariedade aos manifestantes. Políticos da oposição dizem que dezenas de pessoas foram presas por causa dos protestos, que tiveram pouco destaque na imprensa local.

Por décadas, a Tunísia se promoveu no mundo árabe como um país com economia mais forte que a dos vizinhos, em que os direitos da mulheres são respeitados, as manifestações são raras e os turistas europeus podem tirar férias relaxantes em resorts litorâneos. Os protestos recentes, porém, mostraram um lado da Tunísia que o governo tentava esconder – a pobreza do campo, as poucas oportunidades de emprego para a juventude e o ressentimento com o governo do presidente Zine El Abidine Ben Ali, que comanda o país desde 1987.

Grupos como o Fundo Monetário Internacional (FMI) elogiaram a Tunísia por ter superado o período de crise financeira global com relativa tranquilidade. Em 2010, a economia do país cresceu 3,1%, de acordo com dados do governo. A taxa de desemprego, no entanto, foi um ponto fraco e ficou em 14% no ano passado. A situação é pior fora da capital e das regiões turísticas da Tunísia e ainda mais grave no caso dos jovens recém-formados. A cada ano, 80 mil pessoas saem das faculdades para o mercado de trabalho e não há empregos para todos.

Segundo Frederic Volpi, um estudioso do Norte da África da universidade de St. Andrews, na Escócia, afirma que a Tunísia teve “um sucesso excessivo em termos de autopromoção” apesar dos problemas políticos e de direitos civis e dos desequilíbrios econômicos entre as regiões mais prósperas e as áreas rurais. “O que surpreende não é descobrirmos que existem problemas na Tunísia. A surpresa para os que efetivamente analisam a região é como a comunidade internacional, a imprensa e os observadores puderam ser enganados anteriormente pela retórica da história de sucesso tunisiana.”

O governo de Ben Ali tolera pouca discordância pública e foi pego de surpresa pelos descontentes. Um telegrama diplomático dos EUA divulgado pelo WikiLeaks classificou a Tunísia como um “Estado policial” e disse que o presidente perdeu o contato com o povo.

Ben Ali disse que os protestos violentos foram manipulados pela mídia internacional e prejudicaram a imagem do país. Ele substituiu o ministro de Comunicações em uma reformulação do gabinete, mas manteve o ministro de Interior, apesar dos pedidos da oposição para que ele também fosse retirado do cargo.

Após as manifestações, o presidente também ordenou ao primeiro-ministro que mobilizasse as autoridades em escala nacional para a criação de um plano de US$ 4,5 bilhões com o objetivo de gerar empregos para jovens com diplomas universitários. A oposição diz que a resposta do governo aos protestos foi inadequada e que havia também o problema da falta de direitos humanos. As informações são da Associated Press.