O presidente Jair Bolsonaro (PL) afirmou nesta sexta-feira (22) que, na conversa telefônica que teve com Volodimir Zelenski, na segunda (18), o líder ucraniano falou em tom emotivo e desabafou.

Depois, disse ter mantido a “posição de estadista” e que “não existe cobrança” entre chefes de Estado, reforçando a postura que ele define ser de neutralidade do Brasil no conflito entre Rússia e Ucrânia.

“Não existe cobrança entre eu e um chefe de Estado. O Brasil é independente, ele também é independente. Então não tem cobrança”, disse Bolsonaro a jornalistas, em um posto de gasolina em Brasília.

LEIA TAMBÉM:

>> Polícia prende agressor que cuidava de idosos em asilo clandestino em Colombo; caça aos donos continua

>> Nova Identidade começa a ser emitida na próxima semana no Paraná

O presidente também destacou que o Brasil não vai aderir às sanções que outros países impuseram à Rússia, o que ficou claro ao afirmar que não está fazendo “o que ele [Zelenski] quer”. “Continuamos em equilíbrio. E a Otan [aliança militar do Ocidente] é o local adequado para solucionar esse conflito aí.”

Em entrevista à TV Globo, exibida após a conversa com Bolsonaro, Zelenski foi incisivo nas críticas ao Brasil, dizendo não acreditar “que alguém possa se manter neutro quando há uma guerra no mundo”.

“Vamos pensar na Segunda Guerra Mundial. Muitos líderes ficaram neutros no começo dela”, disse o presidente ucraniano. “Isso permitiu que os fascistas engolissem metade da Europa e se expandissem mais e mais. Isso aconteceu devido à neutralidade. Ninguém pode ficar no meio do caminho.”

Se, por um lado, Bolsonaro diz manter o Brasil neutro na guerra, ele frequentemente destaca a relação que mantém com o chefe do Kremlin, Vladimir Putin. A justificativa para tal posição é a importação de fertilizantes, já que os russos são um dos principais fornecedores do insumo ao agronegócio brasileiro.

“Se eu não tivesse em posição de equilíbrio, vocês acham que a gente teria fertilizantes no Brasil?”, questionou o presidente a jornalistas. “Repito, nosso contato com o presidente Putin está dez, excelente. [As relações com os] EUA aí voltaram quase a uma normalidade. O Brasil é procurado pelo mundo todo.”

Bolsonaro viajou a Moscou em fevereiro, dias antes do início da guerra, a despeito de conselhos de aliados para que não fosse. Depois, o governo colocou os relatórios sobre a viagem sob sigilo de cinco anos.

A ideia de ir à Rússia no momento em que havia mobilização de tropas na fronteira com a Ucrânia foi mal recebida por parceiros, como os Estados Unidos, que tentaram fazer com que o governo brasileiro desistisse da viagem sob o argumento de que o gesto representaria apoio às ações de Putin. Já depois de se reunir com o líder russo, Bolsonaro voltou a ser alvo de críticas por se dizer “solidário à Rússia” durante o encontro – ele não explicou a o que se referia ao expressar tal sentimento.

Em mais de uma ocasião desde o começo da invasão russa, Bolsonaro se disse neutro no conflito, ainda que o Brasil tenha sido crítico a Moscou em fóruns internacionais: o país condenou as ações do Kremlin em resoluções da Assembleia-Geral e do Conselho de Segurança, ambos órgãos das Nações Unidas, mas se absteve em votação que suspendeu a Rússia do Conselho de Direitos Humanos.