O primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, disse hoje que a decisão de invadir o Iraque foi justificada. No entanto, afirmou que os Estados Unidos não levaram em consideração as advertências sobre o caos e a violência que ocorreriam assim que Saddam Hussein fosse deposto.

A declaração de Brown foi feita à comissão que avalia a participação britânica na guerra, inquérito que ocorre enquanto se aproximam as eleições nacionais. Em quatro horas de apresentação de evidências, Brown repetidamente expressou pesar sobre a perda de soldados e civis, e reconheceu que erros foram cometidos pelos líderes em Washington e Londres.

Ele afirmou que o Iraque representou o primeiro teste sério ao mundo após a Guerra Fria e disse que qualquer fracasso em depor o líder iraquiano poderia encorajar outros ditadores e ter dado início a tensões globais. Brown disse que a partir de junho de 2002 ele se concentrou em delinear planos para reconstrução pós-guerra e acusou os Estados Unidos de falhar nos projetos sobre como reconstruir e governar o país após a invasão.

“Eu lamento não ter sido capaz de pressionar os americanos sobre esta questão, de que o planejamento para a reconstrução era essencial, da mesma forma que o planejamento para a guerra”, disse Brown. Ele disse ter escrito um documento listando os planos de reconstrução britânicos e o ter enviado para o governo dos Estados Unidos no início de março de 2003.

Brown também tentou se distanciar do então presidente George W. Bush, dando a entender que suas relações eram “amigáveis” e criticou a doutrina de alguns membros do governo Bush. “Eu nunca aderi ao que vocês podem chamar de proposição neoconservadora segundo a qual, com uma arma apontada para a testa, do dia para a noite, haverá liberdade e democracia”, afirmou.

Brown reconheceu que, embora tenha tido um papel importante na guerra do Iraque, não foi convidado para algumas importantes reuniões e não teve conhecimento dos detalhes das cartas trocadas entre Blair e Bush. “Eu tinha conversas regulares com Tony Blair e conversamos sobre essas questões, mas não tenho cópias dessas cartas e não conheço o teor exato das conversas”.

Críticos acusaram Brown de ter cortado orçamentos militares, o que significaria que as tropas não tinham equipamentos no Iraque e Afeganistão. O general Michael Walker, ex-chefe das Forças Armadas britânicas, disse numa audiência anterior que graduados chefes militares ameaçaram deixar seus cargos durante uma disputa sobre recursos com Brown em 2004.

Inquérito sobre a guerra

O inquérito é o terceiro e mais abrangente exame britânico sobre o conflito, que deu início a grandes protestos no Reino Unido e matou 179 soldados britânicos antes de as forças do país deixarem o Iraque no ano passado. A investigação não vai apontar culpados ou estabelecer responsabilidades, mas vai resultar em recomendações, até o final do ano, sobre como evitar erros futuros.

Brown inicialmente parecia nervoso quando começou seu testemunho, brincando com sua jaqueta e uma pasta de couro que continha um grosso volume de papel, mas logo relaxou e até sorriu para a plateia. O testemunho de Brown ocorre após as declarações de seu antecessor Tony Blair, feitas em janeiro.

Brown foi ministro de Finanças entre 1997 e 2007 e aprovou os gastos militares. Hoje, ele negou firmemente as acusações de que tenha cortado os orçamentos de defesa britânicos ou permitido que os soldados fossem para a guerra sem equipamentos adequados. Defendendo seu papel no conflito, mas cauteloso em não inflamar as tensões sobre a guerra impopular antes da campanha para as eleições britânicas, o líder insistiu que se juntar à invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003 foi uma decisão difícil.

“Temos de reconhecer que a guerra pode ser necessária, mas é também trágica no efeito sobre as vidas das pessoas”, disse Brown, que votou, como fez a maioria dos legisladores britânicos, pela aprovação da participação britânica na guerra. “Essas foram decisões difíceis”, disse. “Eu acredito que foram decisões corretas por razões corretas.”

Ao contrário de Blair, que manteve o apoio à invasão e afirmou que Saddam era uma ameaça a todo o mundo, Brown disse acreditar que a guerra foi justificada porque Bagdá não respeitou as regras internacionais e se recusou a obedecer as resoluções da Organização das Nações Unidas (ONU).