O calendário brasileiro vê chegar mais um período carnavalesco e logo as manchetes nos meios de comunicação mudarão para apresentar o nu e a violência, comuns nesses dias. Tudo em nome de uma enganosa alegria.

A dita festa popular, que ainda guarda vestígios de barbárie e do primitivismo reinantes, tem suas origens nas bacanálias da Grécia, quando era homenageado o deus Dionísio. Anteriormente, os trácios entregavam-se aos prazeres coletivos, como quase todos os povos antigos. Mais tarde, apresentavam-se estas festas, em Roma, como saturnais. Depois, na Idade Média, aceitava-se com naturalidade: "Uma vez por ano é lícito enlouquecer", tomando corpo nos tempos modernos, em três ou mais dias de loucura, sob a denominação, antes, de tríduo momesco, em homenagem ao rei da alegria…

Até com uma certa e irresponsável complacência das autoridades policiais, a delinqüência abraça o vício, e o Carnaval transforma-se num índice elevado de vítimas. Homicídios tresvariados, suicídios alucinados, paradas cardíacas por excesso de movimentos e exaustão de forças, desencarnação por abuso de drogas, alcoólicos e outros do gênero, estupros, abortamentos, vinculações obsessivas, brigas, agressões, enfim, violência de múltipla ordem.

Na visão espiritual, nuvem de vibrações psíquicas de baixo teor encobre os locais em que se realiza o frenesi da folia e espalha-se pela cidade, com densidade pastosa, escura, qual nevoeiro de difícil superação. Atmosfera psíquica esta engendrada pelas expressões infelizes e danosas tanto dos "vivos? quanto dos "mortos?, que se somam aos primeiros, aos magotes, em perfeita sintonia.

Lastimável manifestação do egoísmo e do cinismo (e mais o orgulho e a luxúria), desperdiçando nos salões, nas avenidas de pedra ou de areia, enorme quantidade de dinheiro, gastando-o nas fantasias (isso quando o folião se apresenta vestido), nas alegorias, nas bebidas alcoólicas, nas drogas, qual um deboche para com certos padecimentos humanos, retratados na enfermidade, na fome, no frio, no barraco miserável. Paradoxalmente, estes padecimentos muitas vezes estão presentes nas famílias de muitos carnavalescos, e ali permanecerão esperando pela volta do estulto.

Enfim: Carnaval? Nada que o aconselhe. Entretanto, àquele espírita para quem a doutrina fora alento e vida, descerrando os painéis da imortalidade e armando-o da sabedoria que propicia forças para a superação de si mesmo e vitória sobre as conjunturas difíceis, resta o recato pessoal e familiar, ficando longe da festa. E pode colaborar na minimização dos males decorrentes das loucuras dos foliões, mantendo-se em equilibrada e sadia vivência, também nesses dias, independentemente do local e com quem esteja, pois, assim agindo, proporcionará vibrações positivas, que funcionarão qual oportuna chuva que chega limpando a atmosfera de determinada região.

Ainda, dias dos mais próprios e necessários para a manutenção de atividades nas casas espíritas, a fim de que atuem como fontes geradoras de psiquismo positivo, tanto quanto como pronto-socorro para as vítimas espirituais, ou como oásis de reconforto e amparo aos que ali se fizerem presentes, buscando atendimento ou contribuindo com seu trabalho de benemerência. Aliás, recomendação que se encontra assim expressa no capítulo 17 do livro constante em nota de rodapé: "Nestes dias, nos quais são maiores e mais freqüentes os infortúnios, os insucessos, os sofrimentos, é que se deve estar a posto no lar de caridade, a fim de poder-se ministrar socorro".

E continua: "Certamente que o repouso é uma necessidade e se faz normal que muitos companheiros, por motivos óbvios, procurem o refazimento em férias e recreações… Sempre haverá, no entanto, aqueles que permanecem e podem prosseguir sustentando, pelo menos, algumas atividades da Casa Espírita, que deve permanecer oferecendo ajuda e esclarecimento, educando almas pela divulgação dos princípios e conceitos doutrinários com vivência da caridade."

Valoriza, pois, o milagre das suas horas, agindo em benefício próprio e do semelhante, enriquecendo-se de amor e coragem para a realização dignificante.

Carnaval? Fique longe dele!

Divaldo Pereira Franco, do livro Nas Fronteiras da loucura. Editora LEAL. Federação Espírita do Paraná

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