Foto: Fábio Alexandre
Comprar compulsivamente atinge 5% da população brasileira, a maioria do sexo feminino.

Quando o comprar ultrapassa a simples ação, dribla o prazer, passa a satisfação e alcança proporções de vício, e o ficar devendo não lhe preocupa mais, está na hora de buscar ajuda profissional. Afinal, esta doença é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde e tem nome: oneomania. Muito além de uma tendência da sociedade atual, do consumismo, as conseqüências geradas pelo comprar compulsivamente são drásticas. A estimativa é que este ?mal? acomete 5% da população brasileira, a maioria mulher.  

Apesar do título da doença ser pouco divulgado, não são raros os casos. Em Londrina, região norte do Paraná, desde 2001 um grupo oferece apoio a essas pessoas que gastam e devem demais. Pelos Devedores Anônimos (DA) já passaram mais de 300 pessoas em busca de ajuda. As reuniões nos moldes das de outros grupos de anônimos acontecem todas as segundas, das 19h às 20h30. ?Essas pessoas perdem o controle e agem com impulso ao lidar com dinheiro: entram no consumismo compulsivo e no endividamento compulsivo. O ruim é que muitas pessoas sofrem, mas acham que é normal. Dificilmente assumem essa atitude como doença?, afirma o coordenador do grupo, que prefere não se identificar.

A ajuda que o DA disponibiliza é através do seguimento de ?doze passos?. ?Esses doze passos (tratamento em doze semanas) surgiram nos anos 30s, nos Alcoólatras Anônimos (AA). O próprio DA surgiu há trinta anos, no AA, pois verificou-se que muitos transferiam o vício do álcool para o gastar?, expõe o coordenador do grupo. Ao assumir a doença e buscar apoio, o consumidor compulsivo tem que passar por três meses de ?desintoxicação financeira?. ?É muito mais difícil que a desintoxicação química. Às vezes pode levar anos. Estamos falando de um vício que, comumente, algumas pessoas recebem na infância: somos educados a gastar e não a poupar?, alerta.

Desintoxicação

A reunião começa com uma oração, onde se pede serenidade, coragem e sabedoria. Na seqüência, ao longo dos encontros, vêm os passos para ?diagnosticar esses comportamentos e se livrar deles?. O primeiro exercício é de educação financeira, que exige que a pessoa tome ciência das próprias contas, colocando-as no papel. O segundo já exige a ?abstinência?, ou seja, motiva a pessoa a não gastar, não fazer dívida. O terceiro é de análise, sobre a relação com o dinheiro. O quarto é para estabelecer limites. O quinto compara o gasto com a real necessidade. O seguinte é estimular a busca por ajuda, o compartilhar. O sétimo passo é revelar o problema para alguém próximo e confiável. O oitavo estimula o poupar. O nono é novamente um estudo da prioridade dos gastos. O décimo pede que a pessoa tenha mais controle sobre o próprio tempo. O penúltimo faz a pessoa pensar sobre as possíveis recaídas. O passo final da desintoxicação é exigir da pessoa que tenha força ou que a busque espiritualmente.

Conseqüências

?A pessoa que compra compulsivamente muitas vezes aprendeu esta atitude com o colecionismo. Ou seja, a pessoa tinha o costume de gastar tudo o que tinha para comprar algo, como livros, sapatos, objetos de decoração, nem que seja apenas para ficar olhando. Este hábito, que virou compulsão, gera vários problemas. A começar pela perda de crédito, depois perda de confiança, que leva ao isolamento, à solidão, à depressão e às besteiras?, conclui o coordenador do DA.

Crescimento do consumismo está intimamente ligado ao capitalismo

O sociólogo Lindomar Wessler Boneti levanta uma importante questão sobre o comprar demais atualmente. ?O consumismo aumenta quanto mais aumentam as relações capitalistas. O sistema social em que vivemos tem como base esse consumismo. A produção de mercadorias e bens é o que dá riqueza a esse sistema. Porém, para que isso aconteça, tais produtos precisam ser comprados?, pontua.

Boneti explica que há, no entanto, uma grande diferença entre o consumo e o consumismo, sendo este último ?algo que extrapola a necessidade e que vem por ideologia imbricada no capitalismo?. Atualmente, o consumo que, segundo ele, passou da necessidade virou forma de obter prazer e satisfação. ?Hoje os comerciais trabalham um tema que alia a personalidade da pessoa ao consumo, criando a idéia de que a pessoa precisa daquele produto?, sugere o sociólogo.

Ele alerta que se deixar levar pelas mensagens consumistas pode ser traumatizante. ?Traumatiza porque muitas pessoas que estão expostas a essas excessivas mensagens de sucesso aliado ao consumo, quando não podem concretizá-lo desenvolvem um sentimento de fracasso?, aponta.

Propagandas

O professor de Marketing da PUCPR, Marcelo Piragibe Santiago, tem consciência sobre o ?poder? de um comercial bem feito, principalmente por trabalhar o objeto de desejo e envolver os aspectos emocionais ao ato da compra. Porém ele explica que as atividades publicitárias são ?vigiadas? por um Código de Etica e, portanto, exigem grande responsabilidade. ?A propaganda certamente tem esse poder e, quando bem trabalhada, faz as pessoas acreditarem que o produto é essencial e raro. Um exemplo disso são os celulares entre os adolescentes?, afirma.

Segundo Santiago, ?mesmo que essa mensagem seja passada de maneira sutil, a sociedade acredita, pois existe hoje uma carência social, até de auto-afirmação?. No entanto, ele não encara a propaganda como a grande vilã ou culpada pelo consumo exagerado. ?O papel da comunicação é posicionar a cabeça do consumidor. Se a pessoa está mais suscetível, vai comprar, pois não precisa ser compulsivo para se deixar levar. No entanto, aqueles que têm predisposição (à oneomania) vão exagerar?, completa.

Orkut tem comunidades de auto-ajuda

Foto: Aliocha Mauricio

Maria Izabel: vazios da vida.

Na internet, alguns grupos podem assumir o caráter da ?auto-ajuda?. Em espaços como as comunidades do Orkut, o assunto é levantado e os membros redigem sobre as próprias experiências. Com a palavra consumista, são mais de 60 comunidades. Cada qual com um título e uma justificativa para os participantes. Algumas são até curiosas.

A ?Consumista sim, mas fútil não!?, tem 1.075 membros e é para os que amam ?ir ao shopping fazer compras e detestam sair de lá sem ter dinheiro para comprar mais?. Outra, a ?Sou consumista sim… e daí??, tem quase 50 mil membros para os quais ?comprar não é simplesmente consumir, mas é quase entrar em êxtase total… mesmo que isto signifique ter que aposentar o cartão de crédito por um bom tempo!!!?. Ainda tem a ?Consumistas Compulsivos?, com 1.107 participantes que, além de outras atitudes, ?não podem freqüentar locais onde exista possibilidade de consumo, a não ser que estejam desmunidos de cartões de crédito, cheque ou dinheiro e esquecem que o cartão de crédito tem que ser pago no final do mês e que o limite da conta especial não faz parte do salário e incide em juros altos, assim como os do mínimo do cartão?.

A psicóloga Maria Izabel Valente, explica que não são todas as situações de consumismo exagerado que podem ser consideradas patológicas. ?Preocupante é compulsão, como acontece com a comida, as drogas, o álcool. É quando mesmo sabendo que não é legal, a pessoa passa dos limites e não consegue parar?, alerta.

Para que as pessoas compulsivas busquem ajuda profissional, segundo a psicóloga, ?é preciso que algo externo e grave uma falência, brigas, final de relacionamento, dívidas – aconteça para que perceba que precisa ser tratada?. Ela completa que, assim como muitos dos comportamentos compulsivos, o consumo é utilizado para preencher algum dos vazios da vida de determinada pessoa. ?Tem como controlar, a terapia ajuda, assim como o componente familiar, mas às vezes é preciso medicamento para baixar o nível de ansiedade. Porém, quando se trata de algo inicial, a melhor forma de controle é parar e pensar porque e para que se está tendo determinada atitude?, sugere a profissional.