?É um estado alterado de consciência; intermediário entre a vigília e o sono propriamente dito.? Assim os estudiosos da prática definem a hipnose. O que, durante anos, sempre foi visto com olhos de desconfiança – muitas vezes associado ao charlatanismo, mitos ou religião -, aos poucos mostra um efetivo propósito. A finalidade terapêutica da prática cada vez mais atrai profissionais e leigos.

Como explica o psicólogo e psiquiatra Rui Sampaio, especialista em hipnose, a aplicação da prática é bastante ampla. Tanto na medicina quanto na odontologia, a hipnose pode substituir o anestésico. Especificamente na medicina, segundo o especialista, a prática tem grande aplicação nas áreas de cardiologia, ginecologia e obstetrícia (para partos sem dor), psiquiatria, dermatologia e medicina psicossomática (para aliviar dores ou tensões por stress).

Na psicologia, informa Sampaio, a hipnose é utilizada para tratar todos os tipos de fobia, quadros de depressão, quadros de ansiedade, para eliminar traumas e insônia. Uma outra aplicação é a ?hipnose forense?. É exatamente nesta prática que Sampaio se especializou. ?Faz 27 anos que eu trabalho com hipnose. Comecei no Instituto de Criminalística, onde sou chefe do Laboratório de Hipnose Forense. No início, enfrentei muito preconceito. Foi depois de anos que conquistei credibilidade e respeito nesta área de atuação?, conta.

Sampaio esclarece que, na criminalística, a hipnose é aplicada em vítimas e testemunhas de crimes como estupro, seqüestro, assaltos e alguns casos de acidentes e homicídio. ?Usamos muito para fazer o retrato falado. Geralmente nas pessoas que viram, mas esqueceram devido ao trauma sofrido. É preciso esclarecer que só se usa quando a pessoa (vítima ou testemunha) tem amnésia?, revela.

O psiquiatra ainda comenta que são várias as técnicas de hipnose que se aplicam: ?Depende do caso apresentado?. ?No caso do crime, a pessoa chega, passa por uma anamnese (entrevista) para ver se pode passar por hipnose. Em seguida, vou me inteirando do que a pessoa viu. A partir daí faço as orientações e parto para a hipnose. Faço a pessoa fazer o retrato do acusado, mentalmente. Ela acorda da hipnose lembrando do fato e das características para o retrato falado. Basta os olhos, nariz e boca. Em 90% dos casos a gente consegue fazer. Não se consegue quando o trauma é muito grande?, diz.

No mesmo ritmo em que aumentam as aplicações, diminuem os preconceitos e os mitos em relação à hipnose. ?Há alguns anos era vista com maus olhos, eram mal aceitas. O que justificava essa visão era o apelo teatral e até charlatão que tinha a prática. Hoje está avançando muito. Temos profissionais que atuam seriamente?, conclui Rui.

Para não ser enganado por um charlatão, a recomendação é buscar os conselhos profissionais para indicações. ?Comparo a prática ao uso de um bisturi: na mão de um cirurgião capaz salva vidas, mas na mão de um despreparado pode trazer sérios prejuízos?, compara Sampaio.

Dentistas aceitam melhor que os médicos

Ao mesmo tempo em que os profissionais da odontologia estão cada vez mais abertos para a prática, alguns médicos ainda mantêm um certo receio. Dentista, presidente da Comissão de Terapias Complementares do Conselho Regional de Odontologia do Paraná, Cícero Schmidt utiliza a hipnose no consultório há 15 anos. ?Trabalho com a hipnose diariamente. De um modo geral, as pessoas têm grande temor e ansiedade em relação ao dentista, uma certa fobia. A hipnose vem exatamente para tirar esse medo e fazer com que o paciente fique mais tranqüilo?, explica o odontólogo.

Segundo Schmidt, na odontologia, o uso da hipnose funciona. ?Consigo desde um leve relaxamento até a hipnose mais profunda, para fazer até cirurgia sem anestesia. O único objetivo é dar conforto e bem-estar ao paciente?, diz.

Já o psiquiatra Marcos Antônio Bessa, conselheiro do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR), vê com ressalvas a utilização da hipnose. ?Depende da finalidade. Não serve para tudo, nem resolve todos os problemas. Porém, se for feita por profissionais capacitados e com indicações corretas, não tem problema?, afirma.

Segundo Bessa, em muitos casos em que a hipnose é utilizada para tratar problemas de saúde como enxaqueca e outros, a prática ?nem sempre mostra resultado?. Ele acredita que não houve ainda um aumento significativo da prática, assim como não há muita pesquisa sobre o assunto. Perceberam-se os limites da prática, por isso acho que não teve muita adesão?, pondera.

Aumentam cursos de formação

Foto: Ciciro Back

Josiane: relaxamento já é um benefício real da prática.

A psicóloga Josiane Farias Knaut, além de ministrar cursos sobre hipnose, utiliza a prática no consultório. Ela explica que é muito utilizada para tratar depressão, assim como outros quadros de ansiedade. ?O próprio relaxamento que a hipnose proporciona já é um benefício real da prática?, afirma.

Desmistificando os vários ?pré-conceitos? que antes eram associados à hipnose, a psicóloga diz que ?pode acontecer no dia-a-dia, como um fenômeno natural?. ?Assim como as aplicações, os cursos de formação na prática têm se ampliado. Atualmente há a preocupação em treinar para que os profissionais atuem melhor na área?, completa.

Em relação à aceitação dos pacientes, Josiane diz que ?ainda há muitos mitos, o principal é o questionamento: ?E se eu não voltar??, mas isso não existe?. ?Hoje as pessoas estão bem mais habituadas com o tema. Hoje há mais esclarecimento?, observa a psicóloga.

A universitária L.S., de 20 anos, tinha muito pesadelo e sofria com a ansiedade. O tratamento que a psicóloga Josiane Knaut usou foi a hipnose. ?Melhorou muito. Não tive mais pesadelos, assim como diminuiu a minha ansiedade?, relata a estudante. Ela passa por hipnose há pelo menos três anos, já poderia ter tido alta, mas, como revela, ?a hipnose me faz dormir bem?.