Textos traduzidos de tabletes
sumerianos relatam a história
de um paraíso no Oriente.

ARQUEOLOGIA DO IRAQUE

A identificação geográfica do Jardim do Éden estimula alguns pesquisadores a emitirem hipóteses sobre sua possível localização. Os Rios Eufrates e Hidekel (Tigre), mencionados na Bíblia, seriam os mesmos que na atualidade descem suas águas para o Golfo Pérsico. No entanto, não se deve esquecer que depois do primeiro evento da criação e formação da crosta terrestre, ocorreu o cataclismo do dilúvio universal, que teria transformado toda a crosta, configurando assim uma nova topografia da superfície terrestre. As primeiras civilizações, no entanto, preservaram em relatos mitológicos os eventos primordiais da história humana.

S. H. Hooke, na página 114 do seu livro Middle Eastern Mythology, afirma que os sumerianos tinham um poema conhecido como Epopéia de Emerkar, com a qual descreviam um lugar pacífico, o Jardim dos Deuses, onde a doença não era conhecida. Ira Maurice Price, no seu livro The Monuments and the Old Testament, nas páginas 115 e 116, transcreve para linguagem moderna o conteúdo da Epopéia de Emerkar escrito em cuneiforme, em tabuinhas sumerianas depositadas atualmente no Museu Britânico.

O poema relata eventos ocorridos num lugar denominado Dilmun, que, pelas suas características naturais, era considerado o Jardim dos Deuses. Enki, o deus supremo do panteão mesopotâmico, é quem rege esse paraíso. “Em Dilmun, o Jardim dos Deuses onde Enki era seu protetor… Aquele lugar era puro. Aquele lugar era limpo…”

O poema destaca a harmonia natural existente naquele jardim, contrastando com o desconcerto e ferocidade dos seres naturais que vivem fora desse ambiente. “O leão não matava. O lobo não desgarrava a ovelha. O cão não latia para as crianças em repouso. As aves não abandonavam seus filhotes. As pombas não eram postas a fugir…”

Árvore proibida

A excelência do ambiente era tal que havia ausência total de dor física e psíquica, e que o gozo entre os homens era conseqüência da abundância de sabedoria que erradicava toda manifestação dolosa. “Ali não havia doença ou pesar. Não havia falta de sabedoria entre os príncipes. Não havia engano ou dolo…” Nem a dor natural, como a do parto, ali se manifestava, até que tudo mudou por causa de uma desobediência.

A deusa Nin-harsag havia reservado uma árvore naquele jardim que não devia ser tocada, sob pena de severa maldição. O mito registra que um ser divino comera oito frutos que estavam sob o regime da proibição. “Então Nin-harsag, em nome de Enki, emite uma maldição…”

Numa outra tabuinha de pedra da mesma procedência, registra-se em forma dialogada, a mudança de condições após o fato inaudito de consumir o fruto proibido. A terra, os animais e, sobretudo, o homem, sofrem as conseqüências.

“Meu irmão, que de ti está mal? – Minhas pastagens estão doentes.

Meu irmão, que de ti está mal? – Meus rebanhos estão doentes.

Meu irmão, que de ti está mal? ? Meus lábios estão doentes.

Meu irmão, que de ti está mal? ? Minha saúde…”

Price, na página 116, afirma a existência, entre os mesopotâmicos, do conceito da “árvore da vida”. Esta árvore sagrada é vista freqüentemente nos selos de proeminentes personagens da antiga Babilônia. Também aparece entre os relevos de alabastro encontrados no mobiliário dos palácios reais babilônicos.

Serpente e a mulher

Em relação à queda do homem, são bem conhecidos os chamados “selos da tentação”. No passado era freqüente referendar um documento com “selos” oficiais que consistiam em pequenos cilindros de pedra com gravuras na sua superfície. Enquanto o “selo” rolava sobre a camada argilosa de um documento, as gravuras eram impressas em relevo.

Em 1932, o professor E. A. Speiser encontrou no nível VIII das ruínas de Tepe Gawva, um selo com as figuras de um homem, uma mulher e uma serpente gravadas. A presença freqüente de uma serpente na mitologia antiga encarna em si um propósito sinistro. Muito mais quando adverte que esse réptil ocupa um lugar detrás da figura da mulher, acrescentando maior significado à cena.

Na maioria dos “selos da tentação” aparece um homem e uma mulher despidos e sentados junto a uma árvore com uma serpente claramente esculpida no fundo do quadro. O “selo” de Ur, no entanto, mostra o homem e a mulher vestidos.

Os eruditos concordam que essas gravuras são uma representação figurativa simples de alguma tradição sobre a queda do homem, a qual foi comum entre os povos da antiga Mesopotâmia.

Rubén Aguilar

é doutor em História Antiga pela USP, arqueólogo e professor do curso de Teologia no Unasp, Campus Engenheiro Coelho, SP.

Editor desta sessão:

Ruben Dargã Holdorf