Cristãos paquistaneses estão fechando suas escolas em todo o Paquistão por três dias a partir de hoje como protesto pelos assassinatos de oito membros de sua comunidade, no sábado. Centenas de muçulmanos, supostamente estimulados por um grupo islamita radical, invadiu um bairro cristão na cidade de Gojra, leste do país, queimando dezenas de casas, após rumores de que alguns cristãos haviam profanado o Alcorão – livro sagrado do islamismo. Seis cristãos morreram no incêndio e outros dois foram mortos à tiros. A violência foi condenada pelo papa Bento XVI.

Líderes cristãos e o ministro da Justiça da região de Punjab, Rana Sanaullah, disseram que uma investigação inicial havia revelado que a profanação do Alcorão era um boato. “Estamos fechando nossas escolas para mostrar nossa raiva e preocupação”, disse o bispo Sadiq Daniel, lembrando que a medida é pacífica. “Nós queremos que o governo leve os criminosos à Justiça.”

Em telegrama enviado hoje, o papa Bento XVI afirmou que sentiu “profundo pesar” ao ouvir sobre o “ataque sem sentido”. Bento XVI enviou suas condolências às famílias das vítimas e pediu aos cristãos “que não sejam dissuadidos em seus esforços de ajudar a construir uma sociedade que, como um profundo senso de verdade religiosa e valores humanos, seja marcada pelo respeito mútuo entre todos os seus membros”. Em comunicado, o primeiro-ministro paquistanês, Yousuf Raza Gilani, condenou o incidente com “palavras firmes”.

Tropas paramilitares e outras forças de segurança patrulhavam a cidade hoje. Farhatullah Babar, porta-voz do presidente paquistanês, disse que um painel do Judiciário vai investigar o incidente. Não foi informado o número exato de escolas que serão fechadas. Os cristãos representam menos de 5% doas 175 milhões de paquistaneses e geralmente vivem em paz com seus vizinhos muçulmanos.

Porém, extremistas têm feito cristãos e outros grupos de minorias religiosas alvos para seus ataques. Pouco mais de um mês atrás um grupo de muçulmanos ateou fogo a dezenas de residências de cristãos na área de Kasur, segundo informações de meios de comunicação locais. Muçulmanos xiitas, também uma minoria quando comparados ao grupo de sunitas, também são geralmente alvos de ataques, embora os sunitas tenham sido alvos, no passado, de extremistas xiitas. Mas os ataques a minorias parecem ter piorado na medida em que a milícia Taleban ganha força no Paquistão.

Minorias

O Grupo Internacional dos Direitos da Minorias colocou o Paquistão, no ano passado, como o país onde ocorrem as principais ameaças a minorias desde 2007, junto com o Sri Lanka, que entrou em guerra civil. O grupo listou o Paquistão na sétima posição no ranking dos dez países mais perigosos para minorias, depois da Somália, do Sudão, do Afeganistão, do Iraque, de Mianmar e do Congo.

Cristãos e outros grupos religiosos minoritários também são especialmente vulneráveis a leis discriminatórias, dentre elas um decreto contra blasfêmia, que leva à pena de morte por declarações depreciativas ou outra ação contra o islamismo, o Alcorão ou o profeta Maomé. Qualquer pessoa pode fazer uma acusação por essa lei.

O último ataque contra cristãos começou na quinta-feira, após relatos de que uma cópia do Alcorão havia sido profanada. Centenas de manifestantes muçulmanos atearam fogo a várias casas de cristãos nos dois primeiros dias, mas a violência ficou mais forte no sábado. Funcionários do governo disseram que o grupo sunita proscrito Sipah-e-Sahaba Pakistan foi responsável pelos ataques.

Reconstrução

“Este não é o trabalho de muçulmanos. Um grupo de extremistas explorou a situação”, disse Sanaullah a um grupo de cristãos depois das orações funerárias na noite de ontem. “Eu também quero fazer um apelo às duas comunidades para que permaneçam calmas. Por favor, não se tornem uma ferramenta nas mãos de alguns canalhas”, afirmou. O ministro federal para Minorias, Shahbaz Bhatti, disse hoje que o governo vai reconstruir as casas queimadas e oferecer assistência financeira às vítimas.

Bhatti criticou a resposta morosa da política e prometeu que os policiais envolvidos serão responsabilizados. Ele também afirmou que uma celebração de uma semana pelos direitos das minorias, planejado para acontecer no final deste mês, foi cancelada.