?Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia?. A eternizada frase do dramaturgo inglês Willian Shakespeare traduz com exatidão a relação entre a medicina e a espiritualidade. Em todo o mundo, estudiosos se empenham em pesquisas por amostragem para tentar provar a relação entre a fé e a cura, entre os reflexos da alma no corpo, independente da corrente religiosa que a pessoa segue. Porém tudo ainda é cercado por uma aura de mistério.

 O médico Fernando Luchesi, que divide o microfone em um programa de rádio com o padre Marcelo Rossi, afirma categoricamente: a fé não costuma falhar. ?Há pesquisas impressionantes nesta área, que mostram a relação entre sentimentos da alma e o desenvolvimento de doenças?, diz. Segundo ele, há dados contundentes de pessoas que nutrem o sentimento de inveja são mais propensas a desenvolver câncer ou que aqueles que nutrem a raiva e o ódio têm mais tendências para desenvolver problemas cardíacos. ?As doenças da alma refletem no corpo. Comprovadamente, pessoas mais otimistas, que cultivam o bem e a alegria, sofrem menos com as doenças?, diz Luchesi.

A teoria defendida por ele é baseada nos estudos do médico católico norte-americano Harold Koenig, da Universidade de Duke, na Carolina do Norte. Entre os estudos desenvolvidos por ele, está um que comprova que a solidariedade faz bem para a saúde. ?Ele conseguiu comprovar que as pessoas que se doam às outras, com solicitude, vivem até sete anos a mais dos que as que vivem de um modo mais individualista?, diz Luchesi. Nas arriscadas cirurgias de troca de válvulas no coração, as pessoas que freqüentaram cultos religiosos por seis meses foram mais bem sucedidas.

Os 1.100 estudos de Koenig relacionando a medicina à espiritualidade chegaram a mobilizar o então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, que autorizou a liberação de recursos do Instituto Nacional de Saúde (algo como o Ministério da Saúde no Brasil) para pesquisas relacionadas a fé, passando pela acupuntura. ?Nos Estados Unidos, há uma separação rígida entre Estado e religião. Porém, Clinton abriu uma exceção, dados os números das pesquisas?.

Na Califórnia, em Saint Francis, um estudo com enfartados revelou números impressionantes, mesmo para os mais desapegados ao mundo espiritual. Um grupo de pacientes enfartados foi dividido em dois subgrupos – A e B. Nenhum dos pacientes soube a qual grupo pertencia. O grupo A recebeu orações de cristão judaicos e o grupo B não recebeu a corrente de fé externa. Após um ano, foram abertos os estudos. ?Foi confirmado que os pacientes que receberam orações permaneceram menos tempo nas unidades de terapia intensiva, tiveram complicações menores e foram registradas três paradas cardíacas, contra doze do outro grupo, que demorou consideravelmente mais para se recuperar?, conta Luchesi.

Para ele, os estudos de Koenig comprovam que o pensamento positivo, arraigado ao espírito, independente do credo, são fundamentais para curar o corpo. ?O foco positivo aumenta a cura. Milagres acontecem todos os dias. Muitas vezes, os médicos sequer conseguem explicar a recuperação de pacientes já desenganados. É o mistério da força espiritual?.

Capuchinhos promovem celebração de entreajuda

No Novo Testamento da Bíblia, que conta a passagem de Jesus Cristo pela Terra, há trechos marcantes do poder curativo do Messias por meio da imposição das mãos. Inspirado no poder energético das mãos, reforçado por estudos de psicologia holística, o frei Albadi, da Igreja do Capuchinhos, conseguiu autorização para promover um trabalho denominado de entreajuda. Todas as quintas-feiras, na igreja localizada na Avenida Manoel Ribas, centenas de fiéis comparecem para a celebração, que segue um script diferenciado em relação às missas tradicionais da Igreja Católica. ?Trata-se de uma celebração que envolve uma terapia de grupo, na qual as pessoas desenvolvem condições para que a fé em Deus flua?, diz o frei.

Partindo do princípio de que a graça espiritual suplanta a natureza, a celebração começa com um trabalho de relaxamento, comandado por psicólogos e parapsicólogos. Os fiéis são convidados a abrir a mente para a positividade, apostando na crença de que a fé e a meditação ajudam as superar doenças tanto da alma quanto do corpo. ?A fé se une à ciência para o bem das pessoas. Todos nós temos a capacidade de cura, que podemos exercer em nós mesmos e no próximo. Dentro dos corações é que nascem os problemas e temos força para combatê-los?, explica o religioso.

Após o relaxamento, o frei passa a comandar a celebração, convidando ao exercício da fé católica, na qual as pessoas se concentram em pensamento positivo, formando uma verdadeira corrente energética para o bem coletivo. Ao final das palavras do religioso, concluída com uma bênção, os fiéis se postam em filas esperando a imposição de mãos. ?Os energizadores são treinados para o trabalho, de modo que desenvolvam o poder do toque?.

A parapsicóloga Nelly Kirsten, que trabalha como energizadora, acredita fielmente na relação direta entre a espiritualidade e a medicina. ?Há comprovações dessa relação a todo momento. Nos hospitais, há registros de que as pessoas apegadas à fé se curam mais. A fé é acreditar no que não se vê, numa força maior. Se apegando a ela, surge mais esperança?, diz. Ela acredita que tanto a fé que vem de dentro de cada um quanto a fé exalada pelas pessoas que cercam o enfermo têm um poder curativo. ?Quando a família se apega à espiritualidade, à fé, o doente sente o reflexo positivo. E geralmente quem se doa também é recompensado?.

O reflexo do trabalho de entreajuda, que este ano completa quatro anos, pode ser comprovado em cartas e testemunhos recebidos na igreja. ?A cada dia recebemos dezenas de histórias que comprovam que a fé é curativa. Ela pode mover montanhas?, finaliza  frei Albadi.

Em geral, médicos são mais precavidos que religiosos

Se, por um lado, os religiosos têm se aberto à relação entre a medicina e a espiritualidade, com base no relacionamento entre a fé e a ciência, os médicos parecem ser mais precavidos em relação ao tema. O apego ao corpo material, baseado em estudos científicos, costumam afastar os profissionais das crenças espirituais que preceituam a ligação direta entre corpo e alma.

Quebrar a linha de separação entre ciência e espírito, fortalecida nos últimos quatro séculos, é o objetivo de um grupo de médicos vinculados à Associação Médico-Espírita do Brasil (Ame-Brasil). ?Nós divulgamos o paradigma médico-espírita, numa visão holística da saúde, considerando todos os processos mórbidos como sendo essencialmente mentais, comandados pelo espírito?, diz o cardiologista Laércio Furlan, que foi professor da Universidade Federal do Paraná por mais de trinta anos. Representante da Ame-Brasil no Paraná, ele comemora o progresso dos estudos, que vêm se fortalecendo em todo o mundo há quatro décadas, tendo como ponto de partida a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

?Durante quatro séculos a ciência se distanciou da religião e criou-se um abismo. Agora, experimentamos uma reaproximação, visando a integração no corpo de todos os fenômenos – físicos, biológicos, sociais, culturais e espirituais ?, diz Furlan.

A crença na influência espiritual faz com o Hospital do Coração aceite manifestações da fé, como orações familiares e conversas dos médicos com pacientes que estejam abertos a comentar suas necessidades espirituais. ?A espiritualidade pode ser fundamental para a aceitação da doença e na busca de força para combatê-la?, acredita.

O papel mais humanizado do médico já vem sendo buscado nos Estados Unidos, onde dois terços das universidades já possuem uma cadeira chamada ?Medicina, Espiritualidade e Religião?. No Brasil, até agora, apenas a Universidade Federal do Ceará aderiu à idéia. ?Há de se derrubar a idéia de que o corpo é uma simples máquina e o médico é o mecânico?.

Problemas

Se a religião e a fé são defendidas como importante instrumento no combate a doenças, Furlan alerta que, em algumas situações, ela pode ser prejudicial. É o caso de religiões que relutam às ações médicas para salvar vidas. ?As testemunhas de Jeová, por exemplo, não admitem transfusões de sangue e temos que agir contra os preceitos deles para salvar vidas. Outras pessoas, por crenças em curandeiros, param de tomar a medicação. Há de se ter cuidado?. Outro problema que pode acontecer, conforme Furlan, é o paciente deduzir que a doença é uma punição de Deus pelos pecados cometidos.