Famílias com até 20 integrantes, algumas escoltadas pela Procuradoria Geral da República do México, partem em direção à fronteira dos Estados Unidos com intenção de pedir asilo político e, com sorte, fugir da violência que sofrem em seu país.

“Os pedidos de asilo político mudaram radicalmente. Antes, eram solicitados por indivíduos com problemas políticos e, em alguns casos, de insegurança, enquanto agora são famílias inteiras”, explicou à Agência Efe o advogado de imigração Carlos Spector, que diz representar mais de 70 famílias nessa situação.

Apesar da imigração líquida entre ambos os países favorecer o México pela primeira vez em décadas, Carlos assegura que cada vez mais observa famílias pedindo asilo por causa do medo e da violência em seu país.

“Estamos representando famílias inteiras. Muitos perderam seus familiares, foram ameaçados e sequestrados no México”, disse Carlos, afirmando compreender o medo e a raiva vistos nestes mexicanos, os quais foram obrigados a abandonar tudo o que conquistaram em suas terras.

Um dos casos mais recentes que o advogado assumiu é o da família Porras, naturais de Villa Ahumada, no estado mexicano de Chihuahua. Mais de 20 familiares chegaram há três semanas à cidade fronteiriça de El Paso (Texas), escoltados por pessoal da Procuradoria Geral da República do México, após terem dois parentes assassinados.

“Este caso é emblemático. É a maior família que tenho lembrança que deixou o México para buscar refugio nos EUA”, assegurou.

Segundo Héctor Porras, um dos integrantes, a família foi ameaçada e teve seus bens saqueados na frente de agentes da polícia ministerial, que “não fizeram nada”. “Meu irmão Rodolfo foi extorquido por um grupo criminoso. Depois, falaram que ele ia morrer se não pagasse uma parcela para explorar seu próprio negócio”, disse Hector.

“Temos certeza que a razão principal dessa perseguição é nossa afiliação política ao Partido da Ação Nacional (PAN), já que a região é controlada por priístas (PRI) e pelo crime organizado”, disse César Porras, outro deles, à Agência Efe.

Neste aspecto, Carlos concorda com outros advogados de imigração, os quais apontam que este êxodo de famílias é relacionado diretamente com a ação dos cartéis, em cumplicidade com autoridades municipais, estaduais e federais, fustigam famílias inteiras em busca de poder.

“Os criminosos atuam livremente porque o Governo e suas polícias permitem essa impunidade”, disse o advogado.

Outra família que recentemente pediu asilo político é a dos Reys Salazar, que desde 2009 já perdeu seis familiares para o crime organizado no Vale de Juárez.

Os Reys Salazar eram proprietários de várias padarias e foram acusados de trabalhar com traficantes da região, algo que eles negam e consideram calúnias divulgadas pelo Governo mexicano para calá-los.

Em entrevistas à Agência Efe, a família explicou que a tensão com o exército mexicano começou quando uma das mulheres da casa, Josefina, começou a acusá-los de cometer ações ilegais, roubos e outros abusos.

Nos últimos anos, além da própria Josefina, também foram assassinados Julio César (seu filho) e os irmãos Rubén, Maria Madalena e Elías.

O único dos cinco irmãos sobreviventes, que pediu asilo junto a outros membros da família, explicou à Agência Efe que teve que vender todos seus pertences para buscar refúgio nos EUA.

“É muito difícil perder tudo e chegar a um país novo. Mas, temos amor pela família e coragem para transformar as dificuldades em força para seguir em frente”, assegurou.

O ultimo dos integrantes dessa família a chegar aos EUA foi a mãe e matriarca, Sara Reyes, que tinha prometido não sair do México enquanto ainda tivesse algum familiar no país.

“Hoje estamos todos nos EUA pedindo que nos concedam esse asilo para poder viver sem medo de morrer”, disse Sara, assegurando que pelo menos 31 membros dos Reis Salazar deixaram a Ciudad Juárez.

Outro dos casos mais significativos deste êxodo em grupo é o da família de Marisela Escobedo, a ativista assassinada em dezembro de 2010 na frente do Palácio do Governo de Chihuahua. Pouco tempo depois, seus filhos Juan Manuel e Alejandro Frayre, que recebiam constantes ameaças, solicitaram asilo em El Paso.

“Estas famílias e outras muitas estão tentando salvar suas vidas e permanecerem unidas em território americano”, finaliza Carlos.