A relação entre crianças e a televisão pode ser vista de várias formas, desde o ponto de vista educativo até as influências que sua programação exerce sobre temas polêmicos, como a iniciação sexual precoce e formação consciente sobre a violência. A conhecida babá eletrônica vem perdendo o posto de único atrativo e tendo de dividir espaço com outros apetrechos dotados de entretenimento compartilhado, como os computadores, mas continua sendo o principal passatempo das crianças, que deixam horas de seu dia se diluírem entre a verdade, a ficção e o fascínio das imagens.

Para os especialistas, porém, discutir a proibição de deixar os filhos em frente ao aparelho de TV já é assunto do passado. O que se deve focar, hoje, é o conteúdo do que se assiste, porque a TV faz parte do cotidiano, e sua influência é indiscutível na formação de opinião e traços comportamentais das crianças. ?A TV acaba tendo uma relação até maternal com a criança, de cuidar, dar atenção, responder perguntas, já que a mãe está cada vez mais envolvida em outras atividades. Daí a preocupação em relação ao tipo de programação, já que ela pode ser uma boa ou uma má ?mãe??, acredita o psicólogo Luiz Gonzaga Leite.

Por isso, para o psicólogo, os pais devem sempre estar atentos ao que os filhos assistem, já que eles são capazes de entender o que nem sempre os filhos estão aptos a perceber conscientemente. ?Muitas vezes a criança não está preparada para fazer a filtragem dessa grande quantidade de informações?, esclarece.

Discussão

Mas a seletividade não exclui outra necessidade: a de conversar sobre os temas abordados pelos filmes, novelas, desenhos, seriados e outros programas. Conforme Leite, a formação de valores – relativa ao conceito do superego, que compõe a base do pensamento freudiano – tem influências diretas da televisão como determinante em comportamentos e escolhas. ?Um exemplo são os modismos pregados pelas novelas, incluindo desde a forma como os personagens se vestem até a maneira como falam e agem sendo copiadas pelas crianças e adolescentes?, retrata.

Daí a importância em abrir espaço para o diálogo, principalmente quando as crianças vêem temas que podem gerar desconforto nos pais, como sexo ou violência. ?O grande problema das adolescentes grávidas, por exemplo, é que tiveram acesso a informações sobre sexo mas não receberam preparação para lidar com isso?, afirma, indo da atual permissividade do sexo nos meios de comunicação para a banalização da violência, com a demonstração de agressões e assassinatos, por exemplo, na grade de programação: ?Acaba trazendo efeito negativo para a criança?.

Ainda assim, não é apenas o limite entre o bom ou o ruim que deve pautar o controle remoto e a posterior conversa entre pais e filhos. O profissional explica que manter os filhos em uma ?redoma? como forma de protegê-los pode acabar soando como proibição e aumentar, assim, a curiosidade. ?Alguns programas, ainda que sejam violentos ou tenham conteúdos não adequados, devem servir para promover discussão também?, acredita.

Até dez horas por dia em frente à TV

Quem tem experiência no assunto televisão é Leonardo Estevão, de dez anos. Ele mora em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, está na 4.ª série, conhece toda a programação dos principais canais e não perde novelas e desenhos. Garante que chega a passar dez horas por dia em frente ao aparelho. ?Já aprendi muitas coisas, como não jogar lixo na rua e que não se pode destruir a natureza, entre outras coisas?, conta.

Leonardo também tem percepção sobre coisas negativas que passam na TV. ?Os desenhos que eu assisto só têm briga, bastante violência, mas existe em quase todos eles. É normal?, confessa. Características que a avó, Hilda Estevão, aproveita para comentar com o neto, que mora com ela. ?Eu digo que não é porque ele está assistindo que deve fazer tudo igual. Quando os programas falam sobre drogas, bebida, violência, eu converso com ele sobre como isso é ruim. É o que posso dizer?, explica.

Questionada sobre o que acha da relação entre o neto e a televisão, ela reflete: ?Acho que tem coisas que seria melhor nem passar na TV, como a violência e programas somente para adultos, mas também tem outras que são boas para ele poder aprender e se distrair um pouco?. E mesmo gostando tanto de entrar no mundo de imagens e histórias que a televisão oferece, Leonardo sabe que também há outras coisas importantes para fazer quando se é criança. ?Gosto de andar de bicicleta, brincar na rua, desenhar e ler também, mesmo vendo televisão por bastante tempo. Já li até 30 livros em um ano?, conta, orgulhoso por respeitar sua infância. (LM)

Influência nas mudanças sociais

Muitos comportamentos vistos hoje em crianças e adolescentes, têm a ver com o modo que a televisão os atinge. Não que o aparelho seja tão somente um vilão que prega superficialidade e consumo transferidos para as relações humanas, mas que suas características têm a ver com a formação de valores e atitudes, é uma certeza. Alguns motivos que comprovam isso são as alterações no modo como a sociedade pós-moderna – como alguns teóricos da comunicação se referem à atualidade -transmite seus conhecimentos. ?A tradição de relatar histórias oralmente produz imaginação sobre o que é contado, ativando a faculdade que temos de produzir uma ficção sobre o que não entendemos?, explica o psicanalista Léo Cardon. A TV, porém, é uma das contribuições para a entrega da imagem pronta, deixando a necessidade de imaginar – ou criar uma imagem – de lado.

Além disso, os estímulos que a televisão repassa são em geral muito rápidos, trazendo essa velocidade também para as relações humanas.

Mas há um lado positivo na televisão. ?Ela tem o mérito de estimular as conexões, aumentando a capacidade de aprendizado?, reflete o psicanalista. ?O que deve-se repensar, apenas, é a mudança na relação do aprendizado com o que o transmite. ?Há muitos programas bons, mas há também aqueles que induzem a uma padronização, massificando conteúdos importados que muitas vezes não servem para a cultura?, acredita. (LM)

Imagens tendem a desestimular leitura

As crianças de hoje crescem em um meio paradoxal pela rivalidade vivida entre as imagens e as palavras. É o que acredita o teórico e professor do mestrado de Comunicação e Linguagens da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), Alberto Klein. ?Enquanto nossa sociedade valoriza muito a leitura, a reflexão e o pensamento, a gente se depara com universos de suporte ou mídias de imagens que provocam uma certa contradição. Ao mesmo tempo em que tentamos estimular a leitura, estimulamos a produção de outros códigos de transmissão da imagem?, analisa.

No caso da televisão, esta relação é ainda mais problemática, já que ela lida com imagem em movimento. ?Ou seja, ela explora o seu olhar, não o contrário. Essa imagem também se alterna rapidamente e tem discurso fragmentário – da novela passa-se rapidamente para o comercial e vai-se logo após para outro programa, de modo que nosso olhar fica refém dessa movimentação?, raciocina. Um exercício diferente do que acontece no processo de leitura, de projeção ativa do olhar. ?Na leitura, o seu olhar explora a linha?, completa.

É claro que essa complicada relação não significa necessidade de excluir a televisão de nossas casas – o que seria, diga-se de passagem, bastante difícil. Mas implica em pensar uma nova forma de organizar o tempo lidando com as diferentes formas de absorver conteúdo. ?Seria uma espécie de ecologia da comunicação cotidiana. Se a criança é colocada durante uma hora por dia em frente à TV, pode-se tentar com que leia também durante esse mesmo tempo diariamente?, exemplifica Klein. (LM)

Auxílio de informação

Se bem utilizado, o conteúdo da programação televisiva pode servir para fins bastante proveitosos. O que a televisão não pode ser é válvula de escape para que os pais tenham horas de tranqüilidade enquanto os filhos se entretêm em frente à tela. ?O problema é que, muitas vezes, os pais esquecem que ela é para informação, e não para formação?, avalia a psicopedagoga Isabel Parolin. ?O fato de a criança estar quieta enquanto assiste à TV não significa necessariamente que está bem. Quase todos os pais que atendo me relatam a mesma coisa: eles deixam os filhos em frente à TV porque precisam fazer outras coisas e não conseguem, precisam de sossego. E eu sempre digo que, assim, o desenvolvimento deles não vai ser tão bom quanto deveria?, conta.

Ainda assim, há saída. Mas desde que um pouco da atenção seja destinada à criança. ?Isso é feito através da seleção da programação e dos pais atuando como mediadores, usando as informações para provocar reflexões, fazendo perguntas e pedindo atenção a certas cenas, por exemplo?, indica.

O que deve ser dosado é quanto tempo a criança dedica à diversão promovida pela TV, em contrapartida a outras atividades. Este outro lado da moeda pode reverter a preocupação dos pais não tanto para as informações – boas ou ruins – que a TV traz, mas para a ausência de relacionamentos que ela desenvolve. ?O problema é o que ela está deixando de viver enquanto está em frente à TV.? (LM)