Um gel de aplicação vaginal mostrou-se capaz, pela primeira vez, de bloquear o HIV, vírus causador da aids. Em um estudo realizado na África do Sul, a substância reduziu pela metade o risco de uma mulher contrair o vírus de um parceiro infectado. Cientistas qualificaram a pesquisa como um avanço nas tentativas de ajudar as mulheres que mantêm relações sexuais com seus parceiros sem usar preservativos.

O resultado da pesquisa ainda precisa ser confirmado por um novo estudo, e o nível de proteção pode ainda não ser suficiente para que autoridades reguladoras aprovem o gel microbicida em países como os Estados Unidos, dizem os pesquisadores.

Eles se mostraram otimistas com a possibilidade de o gel ser aperfeiçoado. A íntegra do estudo, a ser publicada na edição desta semana da revista especializada Science, será divulgada amanhã por seus autores, em Viena, durante a Conferência Internacional de Aids.

“Esta é a primeira vez que vemos um microbicida dar um resultado positivo”, e que os cientistas concordam se tratar de uma evidência verdadeira de proteção, afirmou o doutor Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Doenças Alérgicas e Infecciosas dos EUA.

Princípio ativo

O gel, cujo princípio ativo é o antirretroviral tenofovir, pode reduzir o risco de uma mulher contrair o vírus causador da aids, o HIV, em até 50% após um ano de uso. A redução chega a 39% depois de dois anos e meio de uso. Para ser autorizado nos Estados Unidos, um gel ou creme capaz de prevenir a infecção por HIV precisa ter eficácia de pelo menos 80%, observou Fauci.

É possível que esse patamar seja alcançado a partir do aumento da concentração de tenofovir ou do uso mais constante do medicamento pelas mulheres. No estudo, as mulheres aplicaram o gel durante apenas 60% do tempo, e as que usaram com mais frequência ficaram mais protegidas. Em um benefício colateral inesperado, o gel também reduziu em mais de 50% a incidência de herpes genital.

Metodologia

O estudo foi realizado com 889 mulheres sul-africanas sexualmente ativas de idade entre 18 e 40 anos, das quais 445 receberam o gel de tenofovir e 444, um placebo – um gel idêntico ao medicamento, mas sem ingrediente ativo.

As voluntárias foram acompanhadas por 30 meses, período em que receberam visitas mensais, quando eram testadas para o vírus da aids e orientadas sobre o uso de preservativo e a prevenção de outras doenças sexualmente transmissíveis. Ao final do período, 98 mulheres haviam se tornado HIV positivas.