?A Igreja Católica, que hoje condena as sociedades secretas, já foi uma delas, na época em que o Império Romano perseguia os cristãos implacavelmente.? (Paulo D?Amaro, 2005).

d41.jpgEscuto desde criança as mais variadas estórias sobre os maçons. Falavam que eles tinham ligações com o maligno e que nos locais (aliás era um mistério) onde os membros se encontravam, existia um bode que deveria ser montado e alimentado.

Essas informações, entre outras, continuam no imaginário social, o que é possível verificar pelas opiniões estranhas a respeito da Maçonaria emitidas por estudantes em sala de aula. Com base em alguns estudiosos sobre o assunto, propõe-se neste artigo evidenciar alguns conceitos sobre a Maçonaria em quatro momentos.

Primeiro momento: A falta de clareza a respeito de quando surgiu a Maçonaria. Sabe-se que a organização da Maçonaria ocorreu no século XVIII na Grã-Bretanha, mas a sociedade já existia na Idade Média na condição de associação de operários e mestres da construção, daí a origem do nome mason (em inglês), pedreiro. Com relação às lendas sobre o surgimento da Maçonaria, para Jean-Michel Mathonière, ?fazem remontar a história à edificação do Templo de Jerusalém pelo arquiteto de Salomão, Hiram, ou mesmo à época antediluviana.? Paulo D?Amaro frisa que Hiram Abiff ?teria sido assassinado por não revelar os segredos da profissão. Tanto que tal templo é um dos mais fortes ícones maçônicos hoje em dia, representando desde a unidade da ordem até a integridade humana. Na verdade, a Maçonaria é repleta de símbolos. Há mais de 70 rituais praticados nas reuniões, servindo à iniciação de membros ou à promoção a postos mais avançados na instituição – são 33 graus hierárquicos ao todo. Os rituais e símbolos são mantidos em segredo absoluto?.

d42.jpgSegundo momento: A Maçonaria não é religião. De acordo com Manoel Gomes, ?a Maçonaria é uma instituição filantrópica, filosófica e progressista. Tem por objetivo o aperfeiçoamento material, moral e intelectual da Humanidade, por meio da investigação constante da verdade, do culto inflexível da moral e da prática desinteressada da solidariedade.?

Terceiro momento: A Maçonaria exige que o candidato não seja ateu. A sociedade pede para que o candidato comprove sua fé em um Grande Arquiteto do Universo, expressão comumente falada pelos maçons quando se referem a Deus. Detalhe: não existe discriminação à fé do candidato, pode ser de formação budista, cristã, islâmica ou qualquer religião. Wagner Veneziani Costa relata: ?O candidato, ao ingressar na Ordem, pode escolher o livro sagrado sobre o qual fará o juramento de acordo com sua religião.?

Quarto momento: A Maçonaria e a Igreja Católica. Antes de ocorrerem desencontros entre maçons e católicos, a relação entre eles era de cordialidade. Eliane Lucia Colussi fala que até o acontecimento da Questão Religiosa se verificava a presença de clérigos na Maçonaria e de maçons nas irmandades religiosas. Mas o que foi a Questão Religiosa? Entre os anos 1872 e 1875 ocorreu a crise entre a Igreja Católica e a monarquia no Brasil. Pelo sistema de padroado (a partir do século XIII), o imperador tinha o direito de indicar os bispos, os arcebispos, entre outros para cargos eclesiásticos, além de aceitar ou não os atos da Santa Sé nesse sentido. Clérigos e maçons viviam em harmonia até o papa Pio IX promulgar (1864) a encíclica Quanta Cura seguida de um anexo, o Syllabus, palavra de origem grega que significa lista de erros.

d43.jpgA bula fortalecia o papado, mas excomungava os maçons, tornando-se logo objeto de várias discussões, pois ao pregar a inconveniência de católicos freqüentarem as lojas maçônicas, o documento provocava a família real que tinha vários membros na Maçonaria. De acordo com Antonio Carlos do A. Azevedo, ?D. Vital, de Olinda, e D. Macedo Costa, do Pará, começaram a cumprir à risca os termos do texto papal, o que provocou imediata reação do império. Adotando os mecanismos legais que possuía, inclusive constitucionais, o imperador determinou a detenção dos dois religiosos que, submetidos a julgamento, foram condenados a quatro anos de prisão, penalidade cumprida apenas por um ano, pois foram libertados por anistia.?

E na atualidade como está a relação Maçonaria e Igreja Católica? Wagner Veneziani Costa conta que, em 1983, o cânon da excomunhão desapareceu, junto com a menção direta à Maçonaria. Isso dá a falsa impressão de que a Igreja Católica não tem restrições quanto à Maçonaria. Mas na declaração assinada pelo cardeal Joseph Ratzinger (hoje papa Bento XVI), prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, está relatada: ?Os princípios da Maçonaria seguem sendo incompatíveis com a doutrina da Igreja, e que os fiéis que pertençam a associações maçônicas não podem ter acesso à Sagrada Comunhão.?

Indicações de leitura: Revista História Viva. Ano II, n.º 19, 2005, páginas 60-66.

Revista Nossa História.  Ano 2, n.º 20. junho 2005, páginas 14-32.

Revista Terra. Ano 13, n.º 156. Abril 2005, páginas 62-73.

Azevedo A. C. do A. Dicionário de nomes, termos e conceitos históricos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.

Gomes, M. Manual do mestre-maçom. Rio de Janeiro: Aurora, 1973.

Lira, J. B. As vigas mestras da Maçonaria. Rio de Janeiro: Aurora, 1964.

Jorge Antonio de Queiroz e Silva é pesquisador, historiador, professor. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná. queirozhistoria@terra.com.br