O mafioso condenado, Gaspare Spatuzza, testemunhou hoje que ele escutou que o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, fez um acordo com a máfia Cosa Nostra na década de 1990, oferecendo benefícios não especificados em troca de apoio político. Berlusconi negou as acusações, que detonaram a mais recente onda de escândalos a envolver o polêmico premiê.

Spatuzza testemunhou no julgamento de apelação do senador Marcello Dell’Utri, um associado político próximo a Berlusconi que foi condenado em 2004 por ter laços com a máfia siciliana e condenado a nove anos de prisão. Berlusconi não está formalmente envolvido no julgamento.

Spatuzza, que cumpre pena de prisão perpétua por vários assassinatos, disse ao tribunal que, em 1993, o seu chefe, Giuseppe Graviano, lhe disse que a máfia havia fechado um acordo com Berlusconi que proveria “benefícios” à Cosa Nostra siciliana em troca de apoio eleitoral. Berlusconi, magnata da mídia italiana, entrou na política alguns meses depois e conquistou seu primeiro mandato como primeiro-ministro nas eleições de 1994.

A atenção e a credibilidade dadas ao depoimento de Spatuzza fizeram com que os promotores dissessem rapidamente que Berlusconi não está sendo investigado. Tanto Berlusconi quanto Dell’Utri disseram que as acusações são ridículas e negaram ter tido qualquer vínculo com a máfia.

O testemunho de Spatuzza foi dado num tribunal em Turim, no noroeste da Itália, sob um pesado esquema de segurança. Spatuzza foi um dos mafiosos que participaram da campanha de terror ordenada por Graviano em 1993, que incluiu mortíferos ataques a bomba em Roma, Florença e Milão. Graviano foi um chefão da máfia siciliana em Palermo. Ele foi detido em 1994 e condenado pelos ataques. Spatuzza foi preso em 1997.

Nas reuniões para planejar os ataques a bomba em 1993, Graviano confidenciou a Spatuzza: “Existe alguma coisa indo em frente que dará para a gente todos os benefícios, a começar por aqueles dos nossos que estão na prisão”, declarou hoje Spatuzza aos magistrados.

Em outro encontro mais tarde, num café na Via Veneto, em Roma, Graviano disse supostamente a Spatuzza que ele havia feito um acordo com Berlusconi, que teve Dell’Utri como intermediário. “Graviano me disse que nós tínhamos conseguido tudo que queríamos graças à seriedade dessas pessoas”, disse Spatuzza. “Elas praticamente colocaram o país nas nossas mãos”.

Dell’Utri disse hoje à imprensa, após o depoimento, que o testemunho foi uma conspiração política para atacar o governo Berlusconi. “Eu não conheço essas pessoas” ele disse, se referindo a Spatuzza e Graviano. “Essas coisas são absurdas”. Berlusconi descartou as acusações e disse ser uma pessoa “que está da maneira mais longe da máfia, em termos de caráter, sensibilidade, mentalidade, educação, cultura e compromisso político”.

O porta-voz de Berlusconi, Paolo Bonaiuti, disse que Spatuzza não é um verdadeiro arrependido da máfia, mas está sendo teleguiado pela organização criminosa para minar os esforços do governo Berlusconi na luta contra o crime. Berlusconi enfrenta processos nos tribunais de Milão por evasão fiscal e corrupção, mas eles não estão relacionados ao julgamento do senador Dell’Utri.