Foto: Chuniti Kawamura/O Estado

 Famílias das mães sociais recrutadas pela Acridas vão morar junto com as crianças atendidas, nas casas-lares da instituição.

As mães sociais exercem papéis fundamentais na educação e desenvolvimento das crianças que moram em casas-lares de instituições assistenciais. Elas se tornam referências familiares para meninos e meninas que foram abandonados ou tirados de suas residências. Mas não é um trabalho fácil, pois as mães sociais precisam ajudar crianças com traumas e marcas profundas na alma a crescer.

"Não é só dar comida e colocar roupa", afirma Geisa Soares dos Santos, uma das mães sociais que trabalham na Associação Cristã de Assistência Social (Acridas), em Curitiba. Ela cuida de cinco crianças, além de seus dois filhos biológicos. As idades variam entre 2 e 13 anos. Geisa aceitou ser mãe social há um ano e três meses, com o apoio do marido. Toda a sua família, mais as crianças atendidas, moram em uma das casas-lares da instituição.

"O mais difícil é lidar com as histórias de vida de cada um. Aceitei o trabalho porque queria fazer a diferença, não só olhar para uma criança e dizer ‘coitadinha’. No começo, não achei que isso era para mim. Pensei que não ia dar conta", avalia. Mas a adaptação deu certo e a convivência com as crianças despertou em Geisa a vontade de prestar vestibular para Psicologia. "Vai me ajudar no trabalho e vou poder compreender mais as crianças", acredita.

A rotina de Geisa com seus "filhos" é como de uma casa qualquer. Seu marido acorda as crianças e serve o café da manhã para elas. A mãe social leva todo mundo para a escola. Depois de voltar para casa, as crianças almoçam por volta de meio-dia. À tarde, se dedicam a atividades extracurriculares. No sábado, vão às aulas de informática e participam do grupo de escoteiros. Geisa coloca as crianças para dormir por volta das 21h30, apesar da resistência de alguns em ir para a cama.

A Acridas divulga o recrutamento para mães sociais em igrejas, que passam por diversas seleções e entrevistas. Elas são contratadas para atuarem nas casas-lares da instituição. Suas famílias vão morar junto com as crianças atendidas. A mãe social deve ter mais do que 25 anos e seu marido precisa estar empregado, explica Regina Natália Mendes, assistente social da Acridas. "Os cuidados são como os de uma dona de casa. Mas é difícil encontrar mulheres dispostas a serem mães sociais, pela própria dedicação integral exigida. Pode ser considerada uma verdadeira missão", conta. Não há prazo para o casal permanecer na casa-lar. Em média, as mães sociais fazem este trabalho entre dois e quatro anos. As 118 crianças atendidas pelo projeto foram abandonadas ou retiradas do convívio familiar. Enquanto ficam na Acridas, continuam as tentativas de reintegração à família biológica.

A dificuldade em encontrar pessoas capacitadas dispostas a aceitar este trabalho também é enfrentada pela organização não governamental Aldeia Infantil SOS, que possui 12 casas-lares em Goioerê, no oeste do Estado. A mãe social deve ser solteira, viúva ou divorciada, não ter filhos menores de 18 anos e possuir mais de 25 anos. A candidata passa por diversos treinamentos, cursos e estágios a fim de se preparar para exercer a função. Cada mãe social acolhe 9 ou 10 crianças. "Não é fácil encontrar porque a mãe é o pivô central para o acompanhamento e desenvolvimento das crianças. Deve ser uma pessoa especial, com vocação, que goste de criança. Este não é apenas um emprego", avalia José Rodrigues Gonçalves, diretor da Aldeia Infantil em Goioerê. A organização atende 119 crianças, oriundas de todo o Paraná.