Um vídeo que mostra o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, se fartando em uma das mais caras churrascarias do mundo, na Turquia, revoltou o povo venezuelano. Pelas ruas a sensação é de traição e desesperança, o que contribui diretamente para que o êxodo da população seja maior a cada dia para fora das fronteiras do país. Pessoas passam (e morrem de) fome, e literalmente catam comida do lixo e recolhem restos das mesas de restaurante para poder ter mais uma refeição no dia.

Veja o vídeo (matéria continua após o vídeo)!

E se você acha que isso é exagero, que está distante da nossa realidade, dois repórteres de Curitiba estão vivendo isso diariamente desde o início da semana.

Enviados para cobrir o jogo do Atlético pela Copa Sul-Americana, Robson De Lazzari, da Rádio Transamérica, e Monique Vilela, da Rádio Banda B, contaram à Tribuna do Paraná um pouco do que viram em Caracas, capital da Venezuela.

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A revolta popular aumentou após o vídeo de Maduro comendo na churrascaria Nusr-Et, cujo dono é o chef Nusret Gökçe, conhecido como “Salt Bae” (aquele que salga as carnes de um jeito engraçado, com a mão para cima e o braço dobrado como se fosse o pescoço de um cisne).

“As pessoas ficaram revoltadíssimas após o vídeo. Enquanto ele comia num lugar extremamente caro, algumas pessoas com quem conversamos não comem frango, por exemplo, há seis meses. Isso mexeu demais com a população, que está revoltada, mas não sabe muito bem o que fazer. Tristes, mas sem forças para reagir”, contou Monique.

“Pegou muito mal. Vi essa notícia e mostrei para o rapaz que está nos ajudando aqui na Venezuela. Ele levou as mãos ao pescoço, se enforcando como se quisesse fazer isso com o Maduro. Ele comendo do bom e do melhor, e o povo aqui se ferrando. A situação é bem feia”, disse De Lazzari.

Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal

Realidade desesperadora

O repórter da Transamérica foi além e contou uma passagem que acontecei com ele nesta terça-feira (18). “Quando terminamos de comer, ia levantando da mesa e vi que o rapaz que trabalha com a gente foi juntando as coisas. Pensei na hora: ‘Putz, como sou mal-educado. Nem peguei a bandeja e joguei o lixo’. Mas ao chegar mais perto, vi que na verdade ele estava recolhendo o resto dos pães e da salada que havia sobrado, embrulhou num guardanapo e guardo, sem constrangimento algum”.

Falta de tudo no país, inclusive o próprio dinheiro. Recém reformada, a moeda (hoje chamada de Bolívar Soberano) não circula simplesmente porque não existe. “As pessoas não têm dinheiro nem para comprar o que ainda existe, e isso deixa o povo muito frustrado”, disse Monique. “Ouvimos vários relatos de gente que perguntava, meio em tom de brincadeira, se tinha como voltarmos junto para o Brasil”, falou De Lazzari. “É um país em marcha lenta”, completou.

Andar na rua é um risco muito grande. “O que mais assusta é a escuridão noturna. Não há movimento, não há luz nas ruas. É assustador. Ninguém sai de casa a noite por falta de dinheiro e medo. E tem o efeito cascata, pois sem dinheiro, recurso, aumenta a criminalidade. É muito triste”, concluiu De Lazzari.