Os militares da ilha de Madagáscar informaram nesta terça-feira (17) que o poder do país, após a renúncia do presidente Marc Ravalomana, foi transferido para o líder da oposição, Andry Rajoelina. O presidente havia anunciado, em um pronunciamento, que deixava o cargo para que uma junta militar assumisse o governo. No entanto, os militares descartaram assumir o poder e horas depois disseram ter dado o controle do país a Rajoelina. O oposicionista pressionou Ravalomana durante meses para que repassasse o poder a ele.

O vice-almirante Hyppolite Rarison Ramaroson confirmou que Rajoelina agora está no comando do país. Em uma cerimônia transmitida pelo rádio a partir de um campo militar na capital, Ramaroson disse que ele e dois generais graduados do Exército rejeitaram a tentativa do presidente Ravalomana de transferir o poder a eles, que governariam numa junta militar. Rajoelina já havia sido aplaudido na entrada do palácio presidencial por soldados amotinados que o respaldaram em sua queda de braço com o presidente.

Os soldados haviam ocupado o palácio deserto, utilizado normalmente para fins cerimoniais, na noite de ontem. O presidente encontrava-se em sua residência oficial, cercado de correligionários e guardas armados. No mês passado, o palácio foi palco de um confronto sangrento entre soldados e opositores no qual 25 pessoas morreram.

Rajoelina, de 34 anos, acusa Ravalomana de malversação de recursos públicos e de prejudicar a democracia de Madagáscar, uma nação insular pobre do Oceano Índico, mais conhecida por suas belezas naturais e pelo passado de instabilidade política. No domingo, Rajoelina autoproclamou-se presidente de um governo de transição e prometeu novas eleições em até dois anos. Ele instou ontem o Exército a prender o presidente, o que não se concretizou.

Rajoelina é um ex-disc jockey e organizador de eventos e shows no país. Empresário precoce, ele abriu uma emissora de televisão em Madagáscar no começo da década e entrou na política em 2008, quando foi eleito prefeito da capital do país, Antananarivo. Desde então, manteve uma disputa política com o presidente. O líder da oposição disse à emissora francesa de televisão LCI que tem o apoio do “povo, dos trabalhadores, dos soldados, sindicatos, de todos os grupos mais importantes do país”. Segundo ele, o “povo dá o poder e também tira o poder”.

Suspensão

A tensão em Madagáscar aumentou a partir do fim de janeiro, quando o governo bloqueou o sinal de uma rádio de oposição. Os confrontos que se seguiram, entre opositores e forças de segurança, resultaram na morte de dezenas de pessoas. A União Africana realizou nesta terça uma reunião para discutir a crise em Madagáscar, em sua sede na Etiópia. O bloco discute se o país pode ser suspenso do órgão, já que mudanças inconstitucionais de poder e golpes são punidos com suspensão automática, de acordo com a carta do órgão.

Os países suspensos são readmitidos quando a ordem constitucional é restaurada, geralmente por meio de eleições. O presidente da comissão da União Africana, Jean Ping, havia dito, mais cedo, que se os militares entregassem o poder a Rajoelina estariam violando a Constituição do país.