O ex-líder cubano Fidel Castro justificou as mudanças de altos funcionários realizadas na segunda-feira (2) no país afirmando que dois membros do governo foram afastados por “ambições” que “lhes conduziram a um papel indigno”. “Não era em absoluto ausência de valor pessoal. A razão era outra. O mel do poder pelo qual não conheceram sacrifício algum despertou neles ambições que os conduziram a um papel indigno”, afirmou. Fidel tratou do tema em um de seus artigos publicados na imprensa cubana, chamados de Reflexiones. Segundo ele, não foi cometida nenhuma injustiça com qualquer político do país.

Os dois funcionários citados são aparentemente o vice-presidente Carlos Lage e o ministro de Relações Exteriores, Felipe Pérez Roque. “Nenhum dos dois mencionados pela notas (de agências internacionais) como os mais afetados pronunciou uma palavra para expressar inconformidade alguma”, disse Fidel. Lage e Pérez Roque estavam entre os mais jovens membros do gabinete e não participaram das lutas guerrilheiras. Lage perdeu o cargo de secretário do Conselho de Ministros, mas manteve o de vice-presidente do Conselho de Estado. Já Pérez Roque ocupa um assento no mesmo conselho, mas perdeu o status de ministro.

A decisão do presidente Raúl Castro de retirar de seus postos alguns poderosos membros do governo levanta questões sobre quem o sucederá. Além disso, há dúvidas sobre se a principal mudança na liderança pode afetar as relações entre Estados Unidos e Cuba. As mudanças anunciadas ontem levaram à substituição de funcionários ligados a Fidel por homens mais próximos de Raúl.

No entanto, as mudanças parecem ter pouco a ver com uma eventual aproximação com os EUA, agora que os dois países têm novos líderes. “Não há nada que indique que é uma reação a algo vindo nos Estados Unidos”, afirma Phil Peters, especialista em Cuba, do Instituto Lexington, localizado perto de Washington. Para ele, ainda é muito cedo para dizer se as mudanças poderiam afetar a relação com a administração do presidente norte-americano, Barack Obama.

Cotados

As propostas de Obama para relaxar as restrições impostas a Cuba provocaram esperanças pela retomada das negociações entre os países, a fim de encerrar décadas de hostilidades. As mudanças de equipe também lançaram dúvidas sobre quem poderia suceder Raúl no poder. O jovem e mais importante dos substituídos é Pérez Roque, sempre cotado para ser o futuro presidente do país. O número 2 em Cuba, José Ramón Machado Ventura, tem 78 anos, um a mais que Raúl.

Pérez Roque foi secretário pessoal de Fidel antes de tornar-se ministro, há quase uma década. “Ele era alguém muito próximo de Fidel Castro e construiu sua carreira diretamente para Fidel”, afirmou Peters. O novo ministro de Relações Exteriores é o até então vice-ministro, Bruno Rodríguez, que também já foi embaixador de Cuba na Organização das Nações Unidas (ONU).

Lage, de 57 anos, manteve o posto de vice-presidente do Conselho de Estado. Porém, perdeu o de secretário do Conselho para José Amado Ricardo Guerra, alto membro do setor militar, que foi comandado por Raúl durante décadas. Alguns ministérios foram agrupados para responder aos pedidos de Raúl por uma “estrutura mais compacta e funcional”. O ministro de Economia, José Luis Rodríguez, foi substituído pelo do Comércio, Marino Murillo Jorge.