O governo da França confirmou no início da noite desta quarta-feira (2), em Paris, que uma equipe de resgate de suas Forças Armadas está em operação na selva colombiana visando a contatar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), localizar e tratar a ex-candidata à presidência Ingrid Betancourt e, se autorizada pelos revolucionários, resgatá-la. A estratégia diplomática representa um derradeiro esforço de negociação tentando evitar a morte da refém, seqüestrada há seis anos.

Baseado em fontes de seus serviços de informação, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, confirmara em público na terça-feira (1) que a saúde de Ingrid, sofrendo de Hepatite B, leishmaniose, malária e desnutrição, é crítica.

A operação em curso foi definida de forma oficial, por fontes diplomáticas do Ministério das Relações Exteriores, como uma "missão humanitária" com dois objetivos: o primeiro, negociar com líderes das Farc um contato com Ingrid Betancourt visando a prestar-lhe socorro médico e, com a eventual anuência dos revolucionários, efetuar sua transferência da selva – o que na prática representaria um ato unilateral de libertação da refém por parte dos guerrilheiros. "A idéia é tomar contato com as Farc, ter acesso à nossa compatriota (Ingrid é franco-colombiana), prestar socorro e, se possível, resgatá-la", confirmou o diplomata ouvido pela AE. "É uma operação muito sensível."

Em nome da delicadeza da ação, o Palácio do Eliseu ordenou aos membros do governo sigilo absoluto sobre a operação. O Ministério das Relações Exteriores não confirma se vem mantendo negociações com as Farc com vistas à libertação. Nem mesmo a composição da equipe de resgate ou a procedência do avião médico foi divulgada. Desde a segunda-feira (31) uma aeronave Falcon 900, da Aeronáutica francesa, estava de sobreaviso no arquipélago dos Açores, no Atlântico. Nele, estariam, além de médicos, o diretor de Américas do Ministério das Relações Exteriores, Daniel Parfait, também cunhado de Ingrid, e o negociador e ex-cônsul da França em Bogotá, Noël Saez.

A missão partiu com a autorização do presidente Álvaro Uribe. Em telefonema, Nicolas Sarkozy solicitou ao chefe de Estado colombiano a suspensão das atividades militares na região em que o encontro entre Ingrid e a equipe médica supostamente aconteceria. Essa área se situaria no sudeste do país. "Estamos depositando muita esperança na operação", disse a jornalistas franceses, na manhã de hoje, o ministro das Relações Exteriores, Bernard Kouchner, até então sem confirmar se a ação estava em curso ou não. "Tudo o que podíamos humanamente fazer, nós fizemos. Agora temos de esperar que nossos enviados especiais, o médico entre eles, alcance a área", afirmou o chanceler.

Pela manhã, Lorenzo Betancourt-Delloye, filho mais jovem de Ingrid, ratificou a operação e voltou a confirmar que o estado de saúde de sua mãe, segundo fontes do governo francês, da família e dos comitês de apoio à refém, é muito grave. "Minha mãe precisa de uma transfusão de sangue com urgência. Não há mais tempo a esperar", detalhou. "Uma operação humanitária está em curso e pretende chegar o mais próximo possível dos reféns enfermos. A única coisa que sabemos é que ela acontece no sudeste do país e que não se trata de uma missão militar, que levaria à morte dos reféns."

Em apelo dirigido a Manuel Marulanda, comandante das Farc, Lorenzo exortou, em espanhol fluente, que os integrantes da guerrilha não ajam como bárbaros e quadrilheiros, "mas como homens". O jovem pediu ainda ao presidente Uribe que mantenha a recente disposição para negociações e aos chefes de Estado da América Latina que pressionem, por vias diplomáticas, pela libertação dos reféns. "Apelo aos países que se unam, em um esforço coletivo. A esperança ainda existe. É preciso crer que as Farc assumirão suas responsabilidades."

Organizações não-governamentais (ONGs) aderiram ao esforço final pela libertação da refém franco-colombiana. Hervé Marro, porta-voz da Agir pour Ingrid, anunciou a realização da Marcha Branca, um protesto que ocorrerá no domingo (6), a partir das 14h30min, em Paris e outras 10 cidades. "Não é uma marcha a mais. É a última marcha", sentenciou, reforçando a seriedade do momento. Entidades como a Repórteres Sem Fronteiras (RFS) anunciaram a participação no movimento.