Túneis altamente protegidos dentro de montanhas nevadas, sistemas de telecomunicação independentes e um sigilo total. Os ingredientes parecem o roteiro de um filme de James Bond. Mas trata-se, na realidade, de modernos e seguros centros de armazenamento de dados suíços, que viram o número de clientes explodir nos últimos anos com a eclosão dos recentes escândalos de espionagem protagonizados pelo governo dos Estados Unidos.

As multinacionais estão correndo para a Suíça buscando proteger informações sigilosas da espionagem industrial e de uma internet e novos meios de comunicação que permitem acesso a seus bancos de dados.

Esses centros são bunkers cinematográficos. É o caso da Swiss Fort Knox, construído dentro de uma montanha dos Alpes. A empresa comprou um ex-bunker do Exército suíço para montar sua estrutura na região de Berna. O local, construído nos anos 60, serviu de abrigo antinuclear na Guerra Fria. Por motivos de segurança, nem a localização exata da montanha nem a identidade de seus funcionários podem ser reveladas.

Quem usa a instalação na montanha é a Siag, uma espécie de private banking de ativos digitais. A empresa não aceita clientes dos Estados Unidos, pois reconhece que não teria como recusar colaborar com as agências de inteligência americana se fosse obrigada.

“Hoje, dados são mais importantes que dinheiro físico ou ouro”, afirmou ao Estado o suíço Christoph Oschwald, gerente da empresa. Ele confirma ter entre seus clientes “alguns” brasileiros, além de companhias de mais de 30 países. “Desde as revelações de Edward Snowden, temos visto um aumento de 300% nas consultas por nossos serviços”, contou. “Antes, tínhamos de explicar por que cobrávamos para proteger dados, já que existiam programas que poderiam ser usados gratuitamente. Agora, não precisamos mais dar explicações.”

Oschwald confia que o sistema de proteção de e-mails e de dados digitais que ele adota não consegue ser rompido nem mesmo pela inteligência americana. “Temos o mesmo sistema que Julian Assange usou e, se ele está vivo e conseguiu difundir toda a informação que divulgou, isso significa que nosso sistema também está fora do alcance dos americanos.”

Funcionamento

Na montanha, tudo é colocado no subsolo, com proteção contra ataques nucleares, químicos e biológicos. A segurança é 24 horas, com dezenas de câmeras e zonas de segurança com separações que resistiriam a explosões. Uma espécie de lago interno garante a temperatura ideal, com entradas de ar desenhadas especialmente para os servidores.

Para garantir segurança total, dois bunkers em duas montanhas separadas por 10 quilômetros são usados, ambos com cabos de fibra ótica, servidores independentes, antenas para a conexão com satélites e até uma pista de pouso com serviços internacionais de aduana para que um jato possa chegar do exterior com algum cliente que queira acesso a seus dados.

Mas a “montanha mágica” não é a maior empresa suíça do setor. A mais expressiva delas é a Artmotion, que viu sua renda aumentar 50% em 2012 e, nos últimos meses, registrou números ainda mais impressionantes, envolvendo desde empresas do setor do petróleo a multinacionais de diversas áreas e países. A empresa afirma ter todos os requisitos para garantir segurança total, entre eles servidores próprios de internet. Dos seus computadores, clientes podem ter acesso ao material, mas sem fazer download justamente para evitar roubos.

As informações são mantidas nos bancos de dados na Suíça e funcionários das empresas não podem mandar ou receber documentos por meio de programas como Dropbox, que têm a sede de operações nos EUA.

Imunidade

Mas a companhia admite que seu maior ativo é estar na Suíça, país que, por não fazer parte da União Europeia, tem as próprias regras de proteção de dados. Outra empresa que destaca a legislação suíça como seu principal “muro” de proteção é a Swisscom, a companhia de telefonia do país. A empresa garante que os ativos digitais de seus clientes estão estocados em Zollikofen em uma estrutura que resistiria a “bombas e terremotos”.

O local tem seis geradores de energia que entraram em funcionamento 15 segundos depois de um eventual apagão. O centro de armazenamento de dados consume um volume de energia suficiente para abastecer uma cidade de 150 mil pessoas.

Por conta da estabilidade política e da tradição de confidencialidade, reforçadas por leis que exigem que uma corte dê o sinal verde para consultas a dados pessoais, o país está sendo obrigado a expandir a área física de armazenamento de dados.

Segundo estudos da empresa de consultoria Broadgroup, até o fim de 2013, a Suíça terá 160 mil metros quadrados de “armazéns” como o Swiss Fort Knox. Em 2016, essa área deve chegar a 200 mil metros quadrados,ou cerca de 30 campos de futebol. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.