Poucos dias depois da primeira rodada de conversações entre as maiores potências mundiais e o Irã em Genebra, começam a aparecer divisões entre Israel e seu principal aliado, os Estados Unidos. Neste domingo, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, exortou os EUA a aumentarem sua pressão sobre o Irã, enquanto altos funcionários norte-americanos sinalizaram com a possibilidade de reduzir as sanções econômicas contra Teerã.

O jornal israelense Haaretz, por sua vez, publicou o que seriam as linhas gerais da proposta iraniana no processo de negociação, cuja próxima rodada está marcada para começar em 7 de novembro.

Em entrevista à rede NBC, o secretário do Tesouro dos EUA, Jacob Lew, disse que é “prematuro” falar em relaxamento das sanções econômicas impostas ao Irã; ele sugeriu que os EUA vão adotar um ponto de vista mais gradualista ao responder a gestos iranianos e não endossou a linha dura defendida por Israel, que acusa o Irã de estar desenvolvendo um programa nuclear com fins militares.

Outros altos funcionários norte-americanos disseram que a Casa Branca está debatendo a possibilidade de oferecer ao Irã uma oportunidade para receber de volta bilhões de dólares em ativos congelados nos EUA, caso Teerã aceite reduzir seu programa nuclear. As sanções econômicas seriam mantidas, mas o descongelamento dos ativos tomados pelos EUA ajudariam a aliviar as dificuldades econômicas enfrentadas pelo Irã.

Também entrevistado pela NBC, Netanyahu afirmou ser contra um “acordo parcial”. “Acho que nesta situação, enquanto não virmos ações, ao invés de palavras, a pressão internacional precisa continuar a ser aplicada, e mesmo aumentada. Quanto mais pressão, maior a chance de que haverá um genuíno desmantelamento do programa nuclear militar iraniano”, disse o primeiro-ministro mais tarde, durante uma reunião com seu gabinete.

O Irã afirma que seu programa nuclear é estritamente civil, para gerar energia e produzir isótopos para uso médico. Como signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear, o país se submete a inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Israel, por sua vez, é considerado o único país do Oriente Médio a ter armas nucleares; por não ter assinado o Tratado de Não Proliferação, o país não permite a inspeção de suas instalações nucleares, existentes desde o começo dos anos 1970, por agências internacionais.

Netanyahu disse que a pressão sobre o Irã precisa ser mantida até que o governo de Teerã suspenda todo o enriquecimento de urânio, remova do país todo o seu estoque de urânio enriquecido e feche todas as instalações de enriquecimento de urânio, entre elas uma que poderia, segundo Israel, ser usada para produzir plutônio. O Irã tem tecnologia suficiente para produzir urânio enriquecido a um grau de pureza de 20%; para uma arma nuclear seria necessário chegar aos 90%, meta que a maioria dos especialistas acredita que os iranianos só teriam condições de atingir dentro de vários anos.

Os detalhes das conversas da semana passada em Genebra não foram revelados, mas neste domingo, o jornal israelense Haaretz publicou o que diz serem as principais propostas apresentadas pelos representantes iranianos. Citando um alto funcionário israelense não identificado, que teria sido informado pelos norte-americanos, o Jornal diz que o Irã estaria disposto a suspender todo o enriquecimento de urânio a 20%, limitar o enriquecimento a 5% e reduzir o número de ultracentrífugas usadas para o enriquecimento, além de abrir suas instalações nucleares a inspeções sem aviso prévio.

O escritório de Netanyahu se recusou a comentar essas informações, mas confirmou que os EUA o têm mantido informado sobre as conversações com o Irã.

Outro jornal israelense, o Yediot Ahronot, disse que parece inevitável uma “explosão” entre Netanyahu e o presidente dos EUA, Barack Obama. Segundo o jornal, altos funcionários do círculo mais próximo de Netanyahu “mantêm uma preocupação profunda de que o presidente norte-americano esteja preparado para reduzir as sanções contra o Irã mesmo antes de as conversações serem concluídas”.

Ephraim Asculai, ex-funcionário da Comissão de Energia Atômica de Israel e atualmente pesquisador do Instituto de Estudos para a Segurança Nacional, disse que é cedo demais para falar em uma divisão entre Israel e os EUA, porque a posição norte-americana ainda não está clara. Para ele, o mais importante é “impedir que o Irã ganhe tempo enquanto avança com seu programa de armas”.

Yoel Guzansky, especialista em Irã do mesmo instituto e ex-assessor de segurança nacional do escritório do primeiro-ministro israelense, disse que sempre haverá uma diferença entre as posições de Israel e dos EUA, por causa da diferença entre a capacidade militar dos dois países e do nível de ameaça que eles enfrentam.

Segundo Guzansly, o governo israelense sabe que não vai conseguir tudo o que quer nas conversações internacionais sobre o programa nuclear iraniano e está pressionando para obter do Irã o máximo possível em termos de concessões. “Parece que os norte-americanos estão interessados em uma perspectiva gradualista. Israel está muito preocupado com isso, e tem boas razões para estar”, afirmou. Ele ressalvou que Israel tem poucas opções além de depender dos EUA e que se houver um acordo, ele praticamente vai afastar a possibilidade de uma ação militar unilateral israelense contra o Irã.

“Israel na verdade só tem uma opção. A chance de o país agir sozinho, depois de os EUA fazerem um acordo, é mínima”, disse Guzansky. Em 1981, Israel destruiu com um ataque aéreo a única instalação nuclear do que era na época o mais industrializado dos países árabes, o Iraque.