Há uma sensação coletiva que o processo eleitoral neste ano não pegou, seja pelas novas proibições, de camisetas, bonés, ?show-mícios? ou porque a política e principalmente os políticos caíram no descrédito da população, haja vista o alto e sistêmico grau de corrupção, como destacam os cientistas políticos: ?esforços para garantir a riqueza ou o poder por meios ilegais, ou seja, lucros privados à custa de gastos públicos?, sem nenhuma punição a culpados e o que é pior, sem a restituição do dinheiro, avidamente roubado dos cofres públicos. Existem os que digam que a crise não é política e sim moral e ética, conjunto das virtudes.

Quando se fala em questões morais, é de bom alvitre lembrar Robert S. McNamara, participante ativo na Segunda Guerra Mundial e secretário de Defesa dos Estados Unidos, nos governos dos presidentes Kennedy e Johnson, quando por uma outra ótica fala da moral em tempos de guerra. No final da Segunda Guerra Mundial, os líderes sobreviventes da Alemanha Nazista foram condenados à morte ou a prisões perpétuas, no Tribunal de Nuremberg, pelas inúmeras atrocidades cometidas nos campos de concentrações, mas ao mesmo tempo nada aconteceu aos líderes americanos, que despejaram em Hiroshima e Nagasaki suas destruidoras e mortíferas bombas nucleares, sem contar com as pilhagens, cometidas por alemães, russos e americanos. Existem outros exemplos mais próximos de nós, como na guerra do Vietnã, quando o agente químico laranja foi lançado em larga escala, matando plantas, animais, vietcongues e americanos. Passadas algumas décadas e, no Iraque, Saddam Hussein usou do mesmo artifício contra seus desafetos, e será enforcado pelos crimes de guerra cometidos.

Poderíamos então afirmar que assim como nas guerras, na política vale a imoralidade para conquistar o objetivo. Fica então a pergunta: condena-se aquele que matou pela atrocidade ou pela eficiência? E em política a perpetuação do poder a qualquer custo, negando os mais claros e absolutos fatos?

Não poderíamos deixar de citar que burocratas do serviço  são capazes de transferir gastos governamentais para áreas em que podem coletar propinas com mais eficiência, como projetos de grande porte que dificilmente podem ser administrados, como aeroportos, estradas, etc… A corrupção estende seus poderosos tentáculos, também na desigualdade socioeconômica, diminuindo significativamente as taxas de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), em detrimento a setores como a educação, onde os gastos são mais visíveis e devem, supostamente, ser menos afetados; investimento que asseguraria com certeza, em longo prazo, melhoria de toda uma sociedade e o desenvolvimento da nação em bases sólidas.

Devemos considerar que a carência moral é algo que vem aos milhares de séculos e contaminou a essência da natureza humana, por nossa forma distorcida de avaliar os erros, assim como nas guerras, glorificamos aquele que consideramos mocinho, que mata o bandido e sai impune, e quando eles nos atingem, fazemos de tudo, até corromper nossos conceitos para ?consertar? uma situação. Atacar o que moralmente é incorreto é como a máscara do arlequim, por traz esconde nosso verdadeiro desejo. As regras sempre serão boas para os outros, menos para nós; o ladrão ou traficante preso, sempre será o filho dos outro, menos o nosso; e aquele que surrupiou milhões e não foi parar atrás da grade acaba sendo um incentivo à máxima: ?rouba, mas faz?.

É importante frisar que os conceitos de certo e errado; bem e mau; bom e ruim, dentre outros, formam o conjunto de idéias que levam a compor a moral e a ética, mas existem outras regras naturais que fazem parte do conjunto, porém, não estão descritas como conceitos, como a preservação da vida e, por conseguinte, da espécie. A ausência de um ou de vários destes parâmetros, subverte e corrompe a moral, a ponto de considerarmos os gritantes desvios da conduta humana um mal menor, como votar no menos ruim.

Sobre os olhos atônicos da moral, todos estão errados porém a moral, nestes casos, é corrompida pelo triunfo dos vitoriosos, nem que para chegarem a este ponto tenham cometido mais crimes que os outros ou ultrajado fatos concretos. Portanto, independente do sangue de milhares de inocentes, derramado ou sugado, vale a regra da vitória.

Para restaurar a ética e a moral na política, é imperioso, em primeiro lugar, avaliarmos nossas posições em relação ao universo que compartilhamos, aceitando os erros como aprendizados e assumindo nossas culpas e desvios, mesmo que isto nos afete ou a nossos entes queridos. Resgatar os conceitos básicos que compõem a base da moral e estar atento ao sentido de vida que carregamos em nosso coração nos arrancará do poço profundo e escuro que se encontra a humanidade. Quem sabe, quando isto ocorrer, não tenhamos mais guerras, e a política seja pautada por homens dignos de merecer nossa confiança e nosso voto.

Dr. Adolfo Rosevics Filho é membro da Academia de Cultura e Academia Sulbrasileira de Letras Subseção Paraná.