As organizações não-governamentais (ONGs) que foram expulsas do Sudão alertam que milhões de pessoas podem passar fome sem a ajuda internacional. Na quinta-feira (5), o governo sudanês disse que estava cassando as licenças de mais de dez entidades por causa de indícios de que elas tenham passado informações sobre o país para os serviços secretos dos Estados Unidos, Europa e para o Tribunal Penal Internacional. Na quarta-feira, o tribunal, com sede em Haia, emitiu uma ordem internacional de prisão contra o presidente do Sudão, Omar al-Bashir, acusado de crimes contra a humanidade e crimes de guerra por causa do conflito na região de Darfur, que deixou 300 mil mortos e 2,7 milhões de refugiados desde 2003, segundo a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

A expulsão das ONGs terá um impacto direto sobre os projetos humanitários da ONU e é vista como uma retaliação indireta do Sudão contra a organização. Várias entidades, entre elas a Oxfam e a Care, pediram ontem que o Sudão reveja sua posição. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, também pediu a Cartum que continue a cooperar com as organizações. Segundo a ONU, 4,7 milhões de pessoas no Sudão dependem de ajuda internacional para se alimentar. Metade do trabalho de distribuição dos alimentos e remédios da ONU era feita por meio das ONGs expulsas.

O vice-ministro de Justiça do Sudão, Abdoldaem Mohameain Ali Zomrawi, disse que a expulsão das ONGs não resultará “necessariamente em uma falta de alimentos”. Cartum afirma que está investigando “dezenas” de ONGs por passar informações para o tribunal. Nos escritórios de entidades como Médicos Sem Fronteiras (MSF) e Ação contra a Fome, carros foram apreendidos, assim como computadores e arquivos. Os funcionários dessas entidades receberam 24 horas para deixar a região de Darfur, no oeste do país e voltar a Cartum, de onde partirão no fim de semana.

Para o governo sudanês, a MSF é uma das entidades que divulgou “provas falsas” sobre o Sudão às autoridades estrangeiras. A entidade rejeitou a acusação. “É um absurdo que estejamos sendo acusados disso”, afirmou o diretor de Operações da de MSF, Arjan Hehenkamp.