O papa Bento XVI encerrou hoje sua viagem a Portugal com um apelo para a expansão da fé, uma peregrinação marcada pela admissão explícita da culpa da igreja no escândalo de abuso sexual de menores por clérigos e uma aposta na superação da crise. O pontífice celebrou uma missa na cidade do Porto, norte do país, sua última parada na viagem, cujo objetivo foi estimular a fé num país majoritariamente católico, mas onde apenas cerca de 20% das pessoas vão regularmente à igreja.

O norte de Portugal é uma região mais conservadora e fortemente católica e Bento XVI foi elogiar os esforços dos bispos locais em tornar mais forte a presença da igreja no país. “Nós precisamos resistir à tentação de nos limitarmos ao que temos ou pensar que o que temos é realmente nosso”, disse o papa. “Quanto tempo tem sido perdido, quanto trabalho tem sido perdido porque não prestamos atenção a isso?”

A polícia estima que mais de 150 mil pessoas participaram hoje da missa, celebrada na frente da prefeitura da cidade, localizada na principal avenida do Porto, que estava cheia de pessoas com bandeiras que gritavam “Viva o papa!” Ontem, cerca de 400 mil peregrinos acompanharam o pontífice ao ponto alto de sua viagem, uma missa no famoso santuário de Fátima, realizada no dia do aniversário da aparição da Virgem Maria para três crianças pastoras.

O avião de Bento XVI decolou para Roma às 2h15 (horário local, 10h15 em Brasília). O papa falou sobre o escândalo de abusos cometidos pelo clero ainda a caminho de Portugal. Ele disse a jornalistas, a bordo do avião papal, que a crise foi causada pelos “pecados dentro da igreja”, sua mais explícita admissão da culpa da igreja até o momento.

Mas Bento XVI falou sobre outros assuntos durante seus discursos e homilias, dentre eles a crescente secularização da Europa e a necessidade de apoiar os ensinamentos tradicionais da igreja em questões centrais da vida e da família.

Em Fátima, o papa declarou que o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo são as ameaças mais “insidiosas e perigosas” que o mundo enfrenta atualmente. Funcionários do Vaticano consideraram a visita a Fátima como uma evidência de que o papa virou a página a respeito do desgate provocado pelo escândalo dos abusos, que há meses é fonte de preocupações.

Crise econômica

Bento XVI não tocou no assunto da crise financeira europeia e dos danosos efeitos que ela tem sobre Portugal. Durante sua visita, o primeiro-ministro do país, José Sócrates, anunciou a elevação de impostos numa tentativa de acalmar os temores dos mercados sobre o déficit português.

A crise tem sido bastante sentida no Porto, conhecida pela produção do famoso vinho do Porto, mas principalmente como o centro da industrial região norte do país. Seu tradicional setor manufatureiro, especialmente de têxteis e calçados, sofreu quedas nos últimos 20 anos, deixando muitas pessoas desempregadas.

A situação dos operários portugueses – o salário mínimo, que é recebido por mais de 300 mil pessoas, é de ? 475 – deve piorar com as novas medidas de austeridade destinadas a reduzir o déficit do governo.

Bento XVI fez poucas e vagas referências ao tempos difíceis, mas falou explicitamente sobre crise em comentários a jornalistas no primeiro dia da visita, no qual ele lembrou seus pedidos para uma ordem financeira mais baseada na ética.

O arcebispo do Porto, Manuel Clemente, referiu-se hoje às dificuldades econômicas em suas boas-vindas ao pontífice, dizendo que a igreja é “urgentemente” chamada para prestar socorro aos mais necessitados.