Lee Keum-seom, de 92 anos, chorava e acariciava o rosto de seu filho, Ri Sang-chol, de 71 anos, nesta segunda-feira, 20. Foi o primeiro reencontro dos dois desde que se separaram, durante a turbulência da Guerra da Coreia. O conflito começou em 1950 e um cessar-fogo foi assinado em 1953. Oficialmente, a guerra nunca acabou.

“Quantos filhos você tem? Você tem um filho?”, perguntava Keum-seom a Ri, durante o encontro tão esperado, no resort Diamond Mountain, na Coreia do Norte. Ri viu a mãe pela última vez quando ainda era criança. Ele mostrou a ela uma foto de seu pai, com quem havia ficado para trás, na Coreia do Norte.

Dezenas de idosos sul-coreanos cruzaram a fronteira entre as duas Coreias nesta segunda para participar de reencontros familiares organizados pelos governos dos dois países. Cerca de 90 sul-coreanos idosos, acompanhados por seus parentes, terão três dias de reuniões com os norte-coreanos antes de voltar para o sul, na quarta-feira.

Segundo o Ministério da Unificação de Seul, uma rodada separada de reuniões ocorrerá de sexta-feira a domingo, envolvendo mais de 300 outros sul-coreanos. É a primeira vez, em quase três anos, que esse tipo de evento é realizado. Desta vez, os reencontros são resultado das medidas para impulsionar a reconciliação entre Norte e Sul, em meio aos esforços diplomáticos para resolver o impasse sobre o programa nuclear norte-coreano.

Grande parte dos coreanos que participam dessas reuniões tem mais de 70 anos e está ansiosa para ver seus entes queridos mais uma vez antes de morrerem. Vários deles nem sequer sabem se seus parentes no país vizinho ainda estão vivos, já que não podem visitá-los na fronteira ou trocar cartas, telefonemas e e-mails. No caso dos sul-coreanos, muitos dos que participam são refugiados, que nasceram na Coreia do Norte e fugiram para o Sul, deixando parte da família para trás.

Os eventos são marcados por emoção e lágrimas. Nos primeiros encontros, nesta segunda-feira, os parentes seguravam as mãos uns dos outros e mostravam fotos da família, enquanto choravam e perguntavam sobre a vida de cada um dos entes queridos que não puderam participar da ocasião.

Han Shin-ja, sul-coreana de 99 anos, ficou sem palavras depois de reencontrar suas duas filhas norte-coreanas, ambas na casa dos 70 anos. Sem saber se a separação seria permanente, ela deixou as duas para trás durante a guerra, enquanto fugia para o sul com a terceira filha, mais nova. Shin-ja só conseguia dizer “Ah” e “Quando eu fugi…”, antes de se afogar em lágrimas.

O veterano de guerra Park Hong-seo, de 88 anos, da cidade de Daegu, na Coreia do Sul, afirmou que sempre se perguntou se teria enfrentado seu irmão mais velho em uma batalha. Seu irmão, depois de se formar em uma universidade de Seul, se estabeleceu na cidade de Wonsan, na Coreia do Norte, como dentista.

Quando a guerra estourou, Park foi informado por um colega de trabalho que seu irmão havia se recusado a fugir para sul, porque tinha uma família no norte e atuava como cirurgião do exército norte-coreano. Park lutou na guerra como soldado estudantil e estava entre as tropas que tomaram Wonsan, cidade onde seu irmão morava, em outubro de 1950.

As forças lideradas pelos EUA avançaram nas semanas seguintes, antes de serem expulsas por uma massa de forças chinesas, depois que Pequim interveio no conflito. Park soube que o irmão morreu em 1984. Nos encontros desta semana, ele conhecerá seus sobrinhos: um homem, de 74 anos, e uma mulher, de 69. “Quero perguntar a eles qual foi seu desejo antes de morrer e o que ele disse sobre mim”, contou, antes do reencontro. “Eu me pergunto se há uma chance de que ele tenha me visto quando eu estava em Wonsan.”

Histórico

Antes das reuniões desta semana, quase 20 mil pessoas haviam participado de 20 rodadas de reuniões presenciais, que começaram em 2000. Outros 3,7 mil trocaram mensagens de vídeo com seus parentes. Nenhum deles teve uma segunda chance de ver ou conversar com os entes queridos.

Durante os três anos desde que as últimas reuniões foram realizadas, a Coreia do Norte realizou testes de três armas nucleares e vários mísseis, demonstrando que poderiam atingir os Estados Unidos continentais. Nos últimos meses, o país mudou sua política diplomática.

O líder norte-coreano, Kim Jong-un, e o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, filho de refugiados norte-coreanos, concordaram em retomar as reuniões familiares durante as duas cúpulas realizadas em abril.

A Coreia do Sul vê a separação das famílias como a maior questão humanitária criada pela guerra, que matou e feriu milhões e consolidou a divisão da Península Coreana em Norte e Sul. O Ministério da Unificação estima que, atualmente, existem cerca de 600 mil a 700 mil sul-coreanos com parentes imediatos ou indiretos na Coreia do Norte. No entanto, Seul não conseguiu convencer Pyongyang a aceitar sua solicitação, de longa data, para realizar reuniões mais frequentes e com mais participantes.

Mais de 75 mil dos 132 mil sul-coreanos que se candidataram para participar de tais reuniões já morreram, segundo o governo sul-coreano. Analistas dizem que a Coreia do Norte vê as reuniões entre parentes como importante moeda de barganha e não quer que sejam expandidas, porque dão ao seu povo uma consciência melhor do mundo exterior. Enquanto a Coreia do Sul utiliza uma loteria computadorizada para escolher quem serão os participantes das reuniões, acredita-se que, na Coreia do Norte, as escolhas são realizadas a partir de critérios como a lealdade dos cidadãos postulantes à liderança do país e ao regime. (AP)