Aliocha Maurício / GPP
Aliocha Maurício / GPP

Roberto Ratzke: o que, para uma comunidade, é parafilia, pode
ser normal para outra.

O autodidata Marco Aurélio Demari pesquisa há mais de 10 anos a parafilia – práticas sexuais incomuns, não aceitas pela sociedade. Ele conseguiu catalogar mais de duas mil existentes em todo o mundo e criou uma espécie de dicionário, explicando didaticamente cada uma delas, além de revelar curiosidades. A leitura sobre algumas dá vontade de rir, outras causam nojo e há outro grupo que provoca revolta.

O professor assistente de psiquiatria da Faculdade Evangélica do Paraná, Roberto Ratzke, explica que as parafilias são um desvio das práticas sexuais aceitas pela sociedade. No entanto, o que pode ser considerado parafilia numa determinada comunidade, em outra ou outro tempo, pode ser encarado como uma prática comum.

No dicionário, há casos de zoofilia que ilustram bem a situação. Segundo o pesquisador, antigamente, entre os ijos, na África, o contato com animais fazia parte do ritual masculino quando? os meninos atingiam certa idade. Todos os meninos deveriam copular com um carneiro, perante um círculo de homens mais velhos, que testemunhavam seu desempenho. Já entre os iorubas, havia o costume (há muito extinto) de um jovem caçador ter que copular com o primeiro antílope que matasse, enquanto o animal estivesse quente.

O fetichismo também se encaixa entre as parafilias. É quando a preferência sexual da pessoa está voltada para objetos, tais como calcinhas, sutiãs, luvas e sapatos. Em alguns casos, exige que o parceiro (ou parceira) use o objeto ou ela mesma se vista com roupas adequadas ao outros sexo.

Há outras práticas que podem provocar risadas no leitor. A espectrofobia é um exemplo. São pessoas que possuem atração mórbida por fantasmas ou maus espíritos e fantasiam relações sexuais. O distúrbio era comum na Idade Média. Já a gessolatria se refere a gente que tem atração sexual por partes do corpo humano quando estão imobilizadas, principalmente engessadas. A pirolagnia também é curiosa. O parafílico tem excitação sexual produzida pela observação do fogo ou de incêndios. Essas pessoas geralmente seguem carros de bombeiros e até mesmo ajudam a apagar o fogo apenas por impulso sexual. A necrofilia é uma das mais divulgadas – o foco do prazer são cadáveres.

O frotteurismo também é considerado uma transgressão social. Alguns homens, para sentir prazer, necessitam esfregar seu pênis em outra pessoa, complemente vestida, sem o consentimento dela. Esta parafilia ocorre principalmente em locais com aglomeração de pessoas, como metrôs e ônibus.

Por outro lado, ser certinho demais é classificado como uma parafilia. Segundo o dicionário de Marco Aurélio, a excitação através da plena concordância com os padrões sociais, religiosos e legais pode ser um desvio sexual.

Demari conta que pesquisou as parafilias em materiais impressos e na própria internet. Segundo ele, o nome dos desvios sexuais geralmente está associado a uma pessoa que o praticava, como é o caso de sadismo, que tinha como precursor o Marquês de Sade.

Comportamento é raro e difícil de ser tratado

A parafilia pode até se apresentar como um assunto curioso para muita gente, mas o mesmo não ocorre com os parafílicos. A maioria de suas relações sexuais está relacionada a algum tipo de desvio sexual. Parte deles sofre com a situação porque se sentem culpados, como é o caso dos exibicionistas que gostam de mostrar suas partes íntimas em local público. Estes se excitam ou sentem prazer vendo a reação de susto das outras pessoas.

Mas se, por um lado, alguns sentem vergonha do comportamento, há outros que não têm nenhum sentimento de culpa. O psiquiatra Roberto Ratzke diz que possuem transtorno de personalidade, uma vez que não conseguem se colocar no lugar dos outros. "Enxergam as pessoas apenas como objetos", comenta.

Segundo o psiquiatra, a parafilia não é comum e geralmente acomete os homens. São poucas as pessoas que procuram ajuda. Por isso, ainda é pouco estudada e, em conseqüência, a ciência não tem uma explicação definitiva sobre a sua origem. Sabe-se que muitos pedófilos sofreram abusos na infância. Mas nem todas as pessoas que são vítimas desse crime desenvolvem o comportamento. Acredita-se que também há fatores biológicos que motivam a prática.

O tratamento é feito através da psicoterapia. A metodologia consiste em incentivar o paciente a sentir prazer de outras formas. As pessoas que buscam ajuda respondem melhor a terapia e alcançam uma melhora significativa do seu quadro. Mas as que possuem transtorno de personalidade não vêem nada de errado em seu comportamento. Geralmente vão para a psicoterapia por ordem da Justiça. Dificilmente se recuperam.

O masoquismo também se classifica como uma parafilia. Mas os atos sadomasoquistas só são considerados parafilia se forem praticados repetidamente ou de forma exclusiva. O mesmo vale para outras parafilias. Ratzke diz que a zoofilia é muito comum nas zonas rurais, mas não quer dizer que todos os praticantes sejam parafílicos. (EW)