O jornalista chileno Cristóbal Peña, que ganhou o Prêmio Nuevo Periodismo Iberoamericano com uma reportagem sobre a biblioteca do ex-ditador Augusto Pinochet, disse que sua maior surpresa foi saber que o general era “bibliófilo” e que guardou muitos livros sobre marxismo.

“É surpreendente descobrir um Pinochet bibliófilo, independentemente de se lia ou não os livros, porque há concordância de que era um personagem enigmático, desconfiado e, pelo menos em nível público, muito elementar, que nunca demonstrou grande cultura. Não era uma pessoa que citava autores ou relacionava leituras”, disse Peña ao jornal La Tercera.

“Na reportagem está o caso de uma perita, que fala pela primeira vez sobre isso, que crê que havia nele uma vontade de entesourar. Não crê que Pinochet tenha sido um grande leitor”, disse.

Peña foi premiado por uma reportagem intitulada “Viaje al Fondo de la Biblioteca de Pinochet”, publicada pelo Centro de Investigación Periodística (Ciper), em dezembro de 2007. O autor conta que a biblioteca de Pinochet continha primeiras edições, antiguidades – algumas com mais de 300 anos, raridades e obras únicas.

São cerca de 55 mil volumes avaliados em mais de US$ 2,5 milhões, que estavam divididos nas bibliotecas das casas de Los Boldos, La Dehesa e no Melocotón.

Entre as obras acumuladas, está parte da biblioteca privada do ex-presidente chileno José Manuel Balmaceda, uma carta original do libertador Bernardo O’Higgins, uma extensa coleção de livros do filósofo espanhol Ortega y Gasset, e obras referentes a Napoleão Bonaparte, além de livros de História, Geografia e Ciências Sociais.

“É curioso que suas grandes temáticas tenham sido essas, dentro das quais ocupam grandes extensões os livros sobre marxismo, o que leva a pensar que uma pessoa que se obceca com o tema e que se erigiu como o grande combatente antimarxista da América Latina, se empenhou de tal modo que quis também conhecer o inimigo. Essa é a interpretação que eu dou”, disse Peña.

A reportagem não só explora esta faceta oculta de Pinochet, mas também lança interrogações acerca do uso que, durante sua vida, o ex-ditador deu àqueles livros.

“No texto, recolho impressões variadas (sobre Pinochet): seus opositores custam interpretá-lo; seus adeptos, denotam um homem culto”, disse o jornalista.