Foto: Ciciro Back

Osmar Ratzke: as idéias suicidas ocorrem em aproximadamente 60% dos deprimidos.

O suicídio é assunto polêmico, apartado da sociedade pela complexidade e dor que envolve. No entanto, muitos profissionais da saúde crêem que fugir do tema só faz piorar a questão, tratada pelo Brasil há algum tempo como um problema de saúde pública. Não é à toa: dar cabo da própria vida já é a terceira principal causa de morte violenta em Curitiba, seguindo tendência mundial. A capital paranaense é também a segunda cidade do País em número de suicídios, perdendo apenas para Porto Alegre. O fenômeno, explicam estudiosos, está fortemente ligado à conjuntura da sociedade atual.

Para o presidente da Sociedade Paranaense de Psiquiatria, Osmar Ratzke, não divulgar informações sobre suicídios é válido, uma vez que o exemplo pode, sim, ser seguido por outras pessoas. ?Na história da humanidade houve uma série de casos em que isso aconteceu?, lembra, citando nomes da literatura, como Goethe, que tiveram grande número de seguidores para suas obras, as quais projetavam o suicídio como o desfecho extraordinário do romance.

O problema, entretanto, é evitar o assunto em si. ?Não aparecem, mas na realidade suicídios acontecem diariamente em Curitiba.? No mundo, é a terceira causa de morte entre jovens de 15 a 25 anos, homens, principalmente. ?E, aqui, estamos em patamar semelhante ou até pior?, lamenta o psiquiatra. Segundo ele, é engano pensar que apenas o frio contribui para que as cidades do Sul liderem as estatísticas. ?Essas cidades estão mais propensas por terem uma classe média mais forte e desenvolvimento maior. Populações mais escolarizadas sofrem filosofando mais sobre a vida, adquirindo uma depressão mais mental que somática e, assim, tornando-se mais propensas ao suicídio?, delimita.

Ele afirma que a idéia de que quem ameaça não executa está equivocada. ?Na maioria das vezes a primeira tentativa é mal sucedida, mas isso não significa que a pessoa parou de pensar no que pretende fazer. A partir daí ela melhora suas estratégias e consegue concluir o que começou.? O resultado é que, de cada dez tentativas, uma é bem sucedida. Portanto, os sinais devem ser observados por familiares, amigos e pessoas próximas a quem já desenvolveu depressão – e jamais ignorados, uma vez que desejar a própria morte se evidencia como o ponto mais grave da doença. ?As idéias suicidas ocorrem em aproximadamente 60% dos deprimidos. A partir daí já começa o risco e a única solução é buscar tratamento imediato.?

Exemplo de que a cura é possível

Foto: Ciciro Back

Psicóloga de 50 anos não imaginou que passaria dos 35.

Hoje com 50 anos, a psicóloga R.G. não imaginou que passaria dos 35. Mãe de três filhos, casada, ela não sabia à época que arrastava de alguns anos uma depressão pós-parto não detectada. A morte do pai veio, então, para pôr um limite à sua capacidade de lidar com a profunda angústia que sentia. ?Comecei a achar que a vida não fazia sentido. Era mais que tristeza, um sentimento que me tirava a noção da vida, nada valia a pena?, conta.

Começou, daí, a planejar sua morte. ?Eu só queria que desse certo?, conta. Morava perto de uma das BRs que cortam Curitiba e a solução encontrada foi jogar-se na frente dos caminhões que passavam a toda velocidade. Ela se dirigiu ao local. Ficou parada no acostamento, estática. Estava pronta para cometer o ato, mas não conseguiu pular. ?Pensava nos meus filhos, como eu gostaria que eles não fizessem um dia o mesmo que eu.? E desistiu, pelo menos naquele momento.

Foi quando uma colega, percebendo que seu estado de saúde não era bom, recomendou a R.G. fazer terapia. ?Minha cura começou ali. Foi um ano junto com o psicólogo, depois passando ao psiquiatra e ao uso de medicação. Foram nove anos de tratamento levado a sério?, lembra. Ela descobriu que existia cura para o que achava não haver solução. ?Percebo hoje que as pessoas perdem a vontade de viver e acham isso normal. Hoje tenho a mesma disposição de quando tinha vinte anos?, comemora a psicóloga, que, de quebra, achou no tratamento uma paixão profissional. ?Agora percebo que o suicídio é algo bem real e sinto que preciso ajudar as pessoas que clamam por atenção para que não cheguem a esse ponto.?

Problema ultrapassa as questões internas

O sociólogo Lindomar Wessler Boneti, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), acredita que o suicídio vai além de questões internas ao ser humano. Para ele, esse fenômeno é também uma construção social. ?Nos últimos tempos a gente percebe uma maior complexidade social em decorrência do aumento populacional, da transformação do conhecimento, da organização da sociedade. Tudo isso pressiona a individualidade?, explica.

Nesse ínterim, ele destaca alguns aspectos. O primeiro é quando a pessoa não se vê inserida em determinado padrão social. ?Cada vez mais a sociedade estabelece um modelo daquilo que se pode compreender como sendo o certo, seja do ponto de vista da beleza, da habilidade para o trabalho, do sucesso.? Não se encaixar em nenhum deles pode desencadear um processo depressivo.

Outro ponto, que complementa o primeiro, seria o excesso de exigência da coletividade. Ele exemplifica com o suicídio infantil, não muito comum no Brasil, mas constante em sociedades mais avançadas e culturalmente fechadas, como o Japão. ?Nasce da baixa auto-estima que se constrói na personalidade da criança em relação à sua capacidade de cumprir com as exigências?, aponta o estudioso.

Os limites dos sonhos ou das perspectivas de busca das pessoas também podem contribuir para o suicídio, estima Boneti. ?Daí entram dois aspectos extremos: não existir mesmo perspectivas, como o que acontece com suicidas de sociedades mais pobres e rurais, ou haver demais?, cita. Um exemplo são os altos índices registrados em países como a Suécia ou o Canadá: ?Apesar do clima influenciar, lá as pessoas nascem com seguro de vida, seguro universidade, ou seja, com a vida construída. O que sobra para ele fazer? É o limite do já ter?.