Há precisamente cinqüenta anos – em 1952, portanto – publicava Tasso da Silveira um dos livros de poesia que mais se destacam na sua opera omnia. Título? Contemplação do Eterno.

Penso que a efeméride constitui um bom pretexto para uma abordagem breve da poesia respeitabilíssima desse curitibano “da gema” que foi Tasso Azevedo da Silveira (1895-1968). Crítico, ensaísta, romancista, tradutor, foi nos latifúndios da criação poética que Tasso pôde altear-se, à maneira de um pinheiro hierático. Ele foi, para mim e para muitos, o maior poeta paranaense de todos os tempos.

Tasso é um poeta de cunho essencialmente religioso. Chegou mesmo a integrar um informal “grêmio” de escritores católicos, de que faziam parte, entre outros, Tristão de Athayde (Alceu de Amoroso Lima), Octávio de Faria, Cecília Meirelles, Murilo Mendes, Augusto Frederico Schmidt e Lúcio Cardoso.

A poesia maiúscula, muitas vezes declamatória, do autor de Canto absoluto e Canções a Curitiba, entre mais de uma dezena de volumes, tem qualquer coisa de bálsamo refrescante, ou mesmo de analgésico para essa ferida exposta que é o ato de viver, exercitado no cotidiano a milenar liturgia da condição humana. Bálsamo feito de espiritualidade, apetite de transcendência, fome de absoluto, vocação para o eterno. Ânsia de Deus e do Seu reino. Ânsia que se realiza e cumpre através da primeira das virtudes teologais: a fé. Que não se limita a mover montanhas, mas é sobretudo ponte pênsil, traço de união ou, quem sabe, cordão umbilical ligando a criatura frágil ao Criador Onipotente.

Na visão e na concepção de Tasso, o homem tem necessariamente que aspirar a Deus, Suma Verdade, Supremo Bem, Infinita Beleza. Àquela “grande ogiva ao fim de tudo” de que fala o poeta. Desse modo, a poética tassiana acaba por transforma-se naquilo que outro poeta católico, Paul Claudel, considera l’oeuvre de Dieu, qui fait la natière des récits et des chants du plus grand poète comme du pauvre petit oiseau. Inclusive, Tasso reproduz em nossa língua o chamado vers claudelien. Sempre com brilho.

Os poemas do curitibano têm quase sempre algo de incenso que se evola para as alturas, em volutas elípticas feitas de verbo e tempo. E lembram preces, orações comovidas murmuradas em surdina numa capela rural que se torna catedral gótica, para que nela ressoe o canto gregoriano da pura poesia. São talvez inflexões divinas no território do humano. Que definem, na sua geometria verbal, a dimensão do poeta e a força da sua poesia. Como se fossem insígnias cantantes – ou emblemas identificadores.

João Manuel Simões

é escritor, membro da Academia Paranaense de Letras.