Dois números divulgados pelo governo colombiano parecem comprovar que existe um outro lado, muito mais sórdido e controverso, no plano de segurança do presidente Álvaro Uribe para combater a guerrilha. Quando Uribe chegou ao poder, em 2002, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) tinham entre 15 mil e 20 mil integrantes. De lá para cá, se desmobilizaram, foram presos ou mortos nada menos que 55 mil guerrilheiros.

“Não podemos subestimar a capacidade de recrutamento das Farc”, diz León Valencia, diretor da Corporação Novo Arco Íris, criada para impulsionar o processo de paz no país. “Mas com tanta diferença entre as duas cifras é difícil negar que as baixas foram infladas nos gabinetes de Bogotá e nos campos de batalha no interior da Colômbia, onde proliferam denúncias de que civis são assassinados por militares e passam para seus registros como guerrilheiros mortos em combate.”

Nas últimas semanas, a Promotoria colombiana anunciou que investiga 1.122 casos de execuções extrajudiciais. Boa parte deles refere-se justamente a inocentes que teriam sido mortos por soldados e enterrados como rebeldes, no que ficou conhecido no jargão militar como “falsos positivos”. São jovens habitantes das periferias, camponeses, mendigos, drogados ou acusados de furtos e atos de vandalismo que de uma hora para outra somem de suas comunidades. “Muitas vezes eles são recrutados por pessoas que lhes oferecem trabalho e aparecem mortos a quilômetros de distância”, diz Maria McFarland, especialista em Colômbia da Human Rights Watch. O escândalo ganhou atenção no fim de outubro, depois que 11 jovens sem nenhuma ligação com a guerrilha desapareceram de Soacha, perto de Bogotá, e foram encontrados mortos numa área de conflito, a 400 quilômetros dali.

O governo admitiu o erro. Afastou 40 membros do Exército e criou ouvidorias nas Forças Armadas. Também foram abertas investigações contra 3 mil militares por envolvimento em execuções extrajudiciais e o chefe do Exército, General Mario Montoya, renunciou. Na semana passada, o vice-presidente Francisco Santos pediu desculpas na Organização das Nações Unidas (ONU) pelos assassinatos durante a comemoração dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.