Foto: Anderson Tozato

Cena comum nos corredores das universidades brasileiras durante o horário das aulas.

Necessidade ou dependência? Hoje, o telefone celular é um instrumento imprescindível para a maioria das pessoas. No Brasil, a média atual é de 1,86 celular por habitante, já que, segundo o IBGE, a população brasileira está em 188,2 milhões de pessoas e, de acordo com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), janeiro de 2007 fechou com 100,7 milhões de celulares habilitados no País. Mas, se por um lado a popularização da tecnologia trouxe inúmeras facilidades, por outro, o uso indiscriminado, em horários e locais impróprios, além de significar falta de educação, pode trazer problemas. Dois exemplos disso são as salas de aula e o trânsito.

Professores são unânimes ao afirmar que o telefone móvel virou um incômodo em sala de aula. E não só entre adultos. O celular está cada vez mais presente nas mãos de adolescentes e crianças, que muitas vezes desafiam os professores. ?O profissional de educação não deve permitir o uso do telefone na sala de aula. Isso atrapalha o desenvolvimento normal, já que desconcentra o aluno?, defende o presidente do Sindicato dos Professores no Estado do Paraná (Sinpropar), Sérgio Gonçalves Lima.

O presidente do Sinpropar explicou que a maioria das escolas de ensino fundamental e médio já impõe regras para o uso do celular dentro do ambiente de estudo. Isso ajuda os professores a coibir e punir, se for o caso. ?Se a escola não ajuda, fica impossível para o professor manter um padrão?, explica. Lima afirmou que vê a situação da mesma forma nas turmas de ensino superior. ?Embora sejam adultos e saibam o que pretendem da vida, eu acho que dentro da questão pedagógica o tratamento não muda?, afirma.

Principais problemas

O celular faz com que o aluno perca a concentração e a linha de raciocínio. A afirmação é da educadora Christiane Burkert Teixeira. ?Os adolescentes, por exemplo, já têm uma dificuldade natural de concentração. Então é preciso fazer de tudo para mantê-la?, aponta. Segundo a educadora, muitos alunos não atendem o celular, porém ficam brincando nos joguinhos ou passando mensagens de texto. ?E atrapalha não só o professor, mas também os colegas, que se distraem com as brincadeiras dos outros.?

Já no ensino superior, onde os alunos têm mais liberdade, Christiane defende que não dá para ter uma ?conduta rígida e inflexível?, porém ressalta que é preciso estabelecer as regras desde o início. O professor do Centro Universitário Positivo (UnicenP), Dario Luiz Dias Paixão, tem a mesma opinião. ?O ideal é que o professor explique como vai funcionar já no primeiro dia de aula?, recomenda.

Paixão comenta que, em sala de aula de adultos, os professores podem se deparar com situações complicadas. ?Muitas vezes, ver o aluno saindo da sala pode parecer um desprestígio à aula. Daí, se o professor cobra ou pergunta o motivo que ele está saindo, pode ouvir alguma coisa não muito agradável. Por isso é melhor conversar antes?, afirma. Mas o maior incômodo, salienta o professor, é quando o aluno esquece de colocar o telefone no modo silencioso. ?Isso distrai todo mundo e dispersa a aula. Daí, até retomar, já perdeu tempo.?

?Atender o telefone dentro da sala de aula é o fato mais grave?, avalia o presidente do Sinpropar. ?Não se trata de proibição. Se eu estou dando aula e toca o celular, paro a aula e fico aguardando. O aluno adulto tem que pedir licença ao professor e ir para fora atender. Se você está numa sala de audiência, não tem como usar o celular. Na sala de aula é a mesma coisa?, ressalta.

Educação familiar

?A educação familiar tem muito a ver com a relação escola-família e com o comportamento do aluno na sala de aula?, aponta o presidente do Sinpropar. Segundo ele, não é anormal os pais irem até a escola para saber o que está acontecendo quando os filhos chegam com reclamações em casa. ?Mas cabe à escola orientar os pais que não dêem apoio a certas atitudes, já que significam prejuízo ao aprendizado?, enfatiza. ?O aluno ainda não tem o conhecimento necessário para saber que aquilo é prejudicial a ele?, completa.

A pedagoga Maria Elígia Macedo ressalta também que os pais devem ter critérios na hora de dar um celular ao filho. Apesar de muitos usarem o telefone móvel como um instrumento de segurança, a pedagoga salienta que algumas situações são excessivas. ?Para crianças pequenas, é um exagero. É um recurso que leva à dependência e ao consumismo porque a criança não tem noção de quanto é pago por aquilo. E é uma idade que tem quem cuide dela sempre?, argumenta. ?A criança cresce não dando o valor devido. E a hora que sair do bolso dela gera frustração, dificuldade de aceitar?, complementa.

Aparelho é um dos principais motivos de gafe

?Toda vez que estiver num espaço público ou privado em que duas ou mais pessoas se reuniram com um objetivo que não seja o celular ele não deve tocar. Hoje é um dos principais motivos de gafe porque ele entra em qualquer lugar, a qualquer hora.? A afirmação é da consultora de etiqueta Tete da Silva. As regras da boa educação, segundo ela, determinam que em certas situações nem o toque nem a conversa devem ser ouvidos por outras pessoas.

?Como tudo hoje é desculpa para as pessoas usarem celular, muitas não se dão conta mais do que é o espaço público. Em sala de aula, o celular não deve ficar no silencioso ou programado para vibrar. Ele deve estar desligado. Hoje existe tecnologia suficiente para na hora que ligá-lo saber os números que tentaram telefonar?, afirma a consultora.

É importante, segundo Tete, ficar atento a algumas dicas para usar o celular. ?Ele deve estar sempre no vibra ou com um toque baixo, não deve ser atendido na frente de outras pessoas, mesmo que seja uma conversa sem muita importância, nunca se deve abandonar quem está na sua companhia para atender o telefone ou, no máximo, se deve pedir desculpa, se afastar e ser o mais breve possível?, recomenda.

Outras regras da boa educação com o celular determinam que se retorne todas as ligações perdidas e sempre se desculpando, que se evite usar o celular de outras pessoas e nunca se deve ligar para alguém muito cedo pela manhã ou muito tarde à noite. ?E toda vez que se liga para uma pessoa tem que, necessariamente, se identificar, depois perguntar se a pessoa está ocupada, dizer o que quer e quem ligou tem que desligar?, explica.

Mexer no celular dos outros também é proibido, segundo a consultora. ?Celular é igual carta, é pessoal. Mexer no celular dos outros é invasão de privacidade?, ressalta. Mas, com relação ao celular dos filhos, Tete reconhece que, ?devido a todos os fatores externos, hoje é preciso monitorar?. Porém, aconselha cautela e limites. ?O pai e mãe devem ter discernimento para saber se têm que mexer ou não?, finaliza.

Alunos precisam ter discernimento

?Eu deixo meu celular sempre no mudo e só atendo se é alguma ligação programada. Mas dentro da sala eu não atendo?, conta o aluno do curso de Engenharia Mecânica Rafael Barroso. ?Muitas pessoas não têm controle mesmo. Mas os professores não reclamam. Ou melhor, acho que só reclamam por dentro?, comenta.

Os universitários do curso de Turismo Joice Cruzeiro Dondalski e Fábio Barbosa Antununcio, que também trabalham juntos, defendem que não há problema em atender o celular durante a aula desde que os alunos tenham discernimento. ?Só atrapalha se tocar alto na sala. E o tempo que usamos é curto?, explica Antununcio.

?Se a gente perder algum ponto da aula pede para o colega a anotação. E, às vezes, a ligação é alguma coisa importante de casa ou do trabalho, já que nós saímos da agência às 18h para vir para a aula e o expediente vai até as 19h?, afirma Joice, que junto com Fábio, assim como fazem quando vão atender o telefone, saíram durante alguns poucos minutos da sala de aula para dar entrevista.

Crescem multas por celular ao volante

O número de multas de trânsito por causa do uso do celular enquanto se dirige aumentou bastante no Paraná nos últimos anos. Em 2005, na comparação com 2004, houve um aumento de 43% deste tipo de infração. Já na comparação de 2006 com 2005, o crescimento foi de 22%. Para o diretor-geral do Detran-PR, David Pancotti, um dos motivos para esta alta é o aumento no número de celulares habilitados e também da frota. No entanto, ressaltou que nada justifica o perigo de dirigir falando no telefone.

?Eu atribuo isso também à sensação de impunidade que as pessoas têm ainda em relação à utilização do telefone celular. Elas não entendem que uma fração de segundos pode custar a vida?, afirma Pancotti. O diretor-geral do Detran-PR cita também que os fones de ouvido também tiram a pessoa da sua atenção regular. ?O motorista vai prestar mais atenção na conversa, já que é o que acontece sempre que se estabelece uma comunicação de forma coerente.?

A infração por dirigir usando celular ou fones de ouvido está prevista no artigo 252 do Código de Trânsito, é considerada de natureza média, rende quatro pontos na carteira de habilitação e custa R$ 85,13.