A Organização das Nações Unidas (ONU) acusou nesta sexta-feira (30) que a junta militar de Mianmar está forçando as vítimas do ciclone Nargis a ficarem em campos de refugiados. Além disso, está "se livrando" deles, instalando-os perto de vilas devastadas, com praticamente nenhum suprimento. "O governo está transferindo as pessoas sem avisar, livrando-se deles em localidades próximas das vilas, com praticamente nada", disse Teh Tai Ring, funcionário do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), durante um encontro de grupos humanitários.

Segundo ele, em uma igreja de Rangum, mais de 400 vítimas do ciclone de uma cidade do delta, Labutta, foram despejadas ontem por ordens das autoridades. "Foi uma cena de tristeza, desespero e dor", disse um funcionário de uma missão batista que atua na capital do país, falando sob condição de anonimato. "Esses aldeões perderam suas casas, seus familiares e toda a vila foi destruída. Eles não têm casa para onde possam voltar.

As autoridades disseram que o grupo de desabrigados que estava na igreja seguiria para um campo em Myaung Mya. Porém não foi informado quando eles retornariam.

Segundo o funcionário da Unicef, alguns dos refugiados estavam recebendo comida enquanto eram forçados a se mudar. Outros não conseguiram alimento, pois haviam perdido o documento de identidade.

"Qualquer movimentação forçada de pessoas é completamente inaceitável", condenou nesta sexta-feira Terje Skavdal, chefe do escritório da ONU para Coordenação de Assuntos Humanitários, sediado em Bangcoc. "As pessoas têm que receber assistência nos acampamentos e as condições satisfatórias precisam ser criadas antes de elas poderem retornar a seus lugares de origem.

Alguns funcionários humanitários estrangeiros ainda aguardavam a concessão de vistos, pela junta militar que governa o país. A Cruz Vermelha Internacional, por exemplo, aguarda autorização para enviar 30 funcionários à região mais atingida.

Estima-se que 2,4 milhões de pessoas estejam desabrigadas e famintas, após a passagem do ciclone Nargis por Mianmar (ex-Birmânia), nos dias 2 e 3 de maio. Dados oficiais apontam para 78 mil mortos e 56 mil desaparecidos.