Desculpe-nos o caro leitor se já estiver saturado de ouvir ou ler sobre o tema eleições. Mas talvez valha a pena insistir um pouco mais. Há alguns anos atrás, uma reivindicação por melhoria salarial dos militares consagrou a expressão “não somos melhores em piores; apenas diferentes”. A mesma pode ser aplicada aos espíritas. Há alguns diferenciais entre eles e os profitentes dos demais segmentos religiosos ou correntes filosóficas. Mas às vezes, lhes são imputadas certas particularidades indevidamente. Provavelmente por culpa deles próprios. Uma delas refere-se a um certo comodismo em relação às possíveis mudanças na vida terrena do homem. Como procuram centralizar as atenções na sua essência espiritual, elegendo como prioritárias as necessidades da individualidade imortal, passam até inconscientemente a impressão de que não emprestam valor às coisas materiais, aceitando, não raro, com excesso de passividade, as agruras impostas pelas diferenças sociais e outras vicissitudes. Laboram intensamente na suavização do sofrimento alheio oferecendo remédios de longo prazo obtidos do formidável manancial de conhecimentos que dispõe sobre a origem, natureza e destino do ser humano; e de curto, por meio da assistência e promoção social, delegando aos outros tomarem as decisões da administração pública e das transformações sociais.

Ensinam-nos os Mentores que a ação dos maus freqüentemente prevalecem sobre a dos bons porque enquanto estes são fracos e tímidos, aqueles são intrigantes e audaciosos. Logo, não podemos pactuar com posturas passivas ou omissas. O consolo de uma vida futura mais feliz não serve para justificar a negligência do presente aqui mesmo na Terra. Mundo de provas e expiações, tempo de exílio e acerto de contas com a justiça divina e reconstrução de si mesmo. Mas não precisamos levar ao pé da letra certos preceitos exagerados de humildade e resignação inerte diante do sofrimento com o qual Deus não se compraz. Ele quer ver suas criaturas felizes e quanto antes, melhor.

De fato, um daqueles diferenciais referidos acima diz respeito ao não envolvimento das instituições espíritas e a prestação de seus serviços com a política. Ao contrário dos que alardeiam a sua condição de fé e a cada pleito organizam-se cada vez mais, consolidando bancadas no Congresso Nacional para defender interesses de alçada exclusiva dos movimentos internos dos grupos religiosos, os espíritas preferem dar a César o que é de César e a Deus o que a este se deve na forma de atitudes e práticas baseadas em princípios éticos bem definidos. Não podem cair na tentação de vincular valores e objetivos transcendentais ao exercício do poder temporal, aviltando a nobreza da fé e da caridade. A História está repleta e a humanidade ressente-se ainda hoje dos efeitos nocivos destes equívocos.

Porém, o espírita não pode ser um alienado das coisas do mundo e todo cidadão, independente de rótulos, deve dispor do que possuir de melhor para contribuir com o bem social. Estamos todos no mesmo barco e temos o privilégio democrático de escolher e pleitearmos fazer parte da tripulação que o conduzirá com competência e segurança ou não, a depender do talento profissional emanado da cabine de comando. Prefeitos e vereadores são os políticos que agem mais próximos de nós. Influenciam no dia-a-dia e geram variáveis do nosso destino. Muito da nossa vida pessoal, familiar, social e econômica é definida pela ação dos que se investem de certa missão perante as leis divinas e tornam-se responsáveis pelos resultados advindos do bom ou mau uso que façam deste poder temporário.

Política não é incompatível com a vida do homem espiritualizado. Nem o dinheiro, nem o poder. Apenas instrumentos neutros colocados nas mãos dos homens para construir o Bem. Enquanto leitores, valorizemos o exercício de duplo caráter de precioso direito e dever democrático que é o voto. Discernir a boa intenção da astúcia oportunista, exigir depois respeito à confiança depositado na urna, cobrar promessas e dedicação pelo salário pago com os recursos do contribuinte. Conscientemente, amigo leitor e eleitor, daqui a 15 dias, que o seu voto sirva para acrescentar uma melhoria pequena que seja à sua cidade e a à sua vida.

Coluna mantida pela ADE-PR – Associação de Divulgadores do
Espiritismo do Paraná. E-mail:

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