Está certo que uma pequena dose de contestação já se esperava. O PT é assim mesmo. E essa efervescência de idéias e entendimentos é – todos reconhecem – a sua mais importante força. Mas a nação não estava acostumada a assistir, dentro do governo para onde se transferiu o partido criado na militância da oposição, essa eclosão de interesses contraditórios, com o conseqüente ensaio de um processo de caça às bruxas, promessas de enquadramento, públicas repreensões, choros e vontades justificadas em nome de princípios pessoais inarredáveis. Se continuar assim, o PSDB e outros partidos empurrados para a oposição pelas urnas podem tirar férias. O PT se basta.

Importa agora saber se isso basta ao Brasil. Ou melhor, se nesse cadinho de contradições em que está prestes a se transformar o Planalto há espaço para o desenvolvimento do trabalho prometido nas sucessivas campanhas, com destaque para o que foi dito nesta última, que despertou de norte a sul a vontade de mudança. Pelo menos nos últimos dias, mais que falar na estratégia e nas propostas de reforma da Previdência, fiscal e tributária, política e trabalhista, do Judiciário e outras, ouvimos e assistimos o suceder de embates, internos já nem tanto, entre próceres do partido do próprio governo. O barulho da discórdia conseguiu inclusive empanar o brilho (e as contradições) do programa principal e primeiro do governo – o Fome Zero.

Como se puxasse a ponta do fio de um novelo, a senadora Heloísa Helena já não mais está sozinha. A pública discordância da nomeação do presidente do Banco Central e a sua ausência na eleição de José Sarney como presidente do Senado transformaram-na numa espécie de líder das correntes que, já durante o processo eleitoral, haviam manifestado discordância ao tipo de alianças costuradas pelo candidato hoje ocupante do Planalto. Ficaram quietas diante do argumento de que primeiro precisava ganhar a eleição, mas agora cobram o que – é despiciendo dizer – ficou dito nas entrelinhas.

Mas o que então ficou subentendido já não conta perante o resto da nação. Isso pertence à economia doméstica do partido, se muito. Não foi outro o sentido do que disse a portas fechadas (mas foi transmitido depois aos quatro ventos, em função de uma gravação clandestina à la procurador Luiz Francisco de Souza) o ministro Antônio Palocci na célebre reunião do fim de janeiro: o governo precisa cumprir o que prometeu, honrar os compromissos assumidos, realizar o sonho da transformação sem ruptura de contratos. Não foi bom ganhar a eleição?

Ora, fica cada vez mais claro que quem ganhou a eleição foi Lula, não o PT. Este, no máximo, deu-lhe a chance de realizar os conchavos que julgasse necessários para tentar, pela quarta vez, subir no pódium. Deu certo e agora, através de seus radicais, trata de impor um programa que não condiz com o estilo paz e amor do marketing vitorioso. E exige – como bem lembrou Palocci – o estelionato eleitoral em nome dos originais princípios.

Que não seja por falta de aviso: os radicais estão na marca do pênalti. Ou se calam ou, se incomodados, que se retirem, tramando extramuros da cidade, como diria Cícero a Catilina. Quem está no governo precisa governar. Tem que trabalhar, e muito, para transformar sonhos e promessas em realidade. A dialética da oposição, sem compromisso com a esperança, segue outros ritmos.