Brasília – Em meio à solenidade em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou programas para incentivar a área de habitação, integrantes do Movimento Nacional de Luta pela Moradia levantaram-se gritando: "Lula de novo, moradia para o povo." A cerimônia foi marcada por gafes e situações estranhas

Ao final do evento, o presidente tirou fotos com os manifestantes e, instado por eles a ser novamente candidato, deu uma resposta dúbia. "Dissemos ao presidente para ser candidato e ser firme porque precisamos dele para continuar as reformas urbana e agrária", disse Edymar Cintra, representante de Mato Grosso do Sul no movimento. Lula teria respondido: "Eu serei, porque conto com o apoio dos movimentos populares." Ao repetir a conversa, Edymar explicou que o presidente estava se referindo a ser firme e não teria falado especificamente em ser candidato.

O grupo, de aproximadamente seis pessoas, foi convidado a participar da solenidade pelo Palácio do Planalto e antecipou a ida a Brasília, onde chegaria apenas na tarde de hoje para participar da reunião do Conselho das Cidades, órgão consultivo ligado ao Ministério das Cidades. As despesas de deslocamento e estadia ficaram por conta do Conselho.

Além dos manifestantes em meio a uma cerimônia oficial, a solenidade foi marcada por uma situação no mínimo estranha: antes de o presidente começar seu discurso, a assessoria do Planalto programou a apresentação de um vídeo, como costuma ser comum nesses eventos. No entanto, dessa vez o vídeo nada mais era do que uma reportagem da TV Globo sobre o financiamento da habitação, exibida no dia 17 de janeiro.

A própria emissora não foi nem avisada de que o material seria usado. A reportagem mostrava um gráfico da evolução de investimentos no financiamento habitacional, dizendo que passara de R$ 5,049 bilhões em 2002, último ano do governo Fernando Henrique Cardoso, para R$ 9,2 bilhões em 2005. Foi essa parte que interessou a Lula.

No entanto, o material apresentado na íntegra incluiu ainda as críticas de que o programa a ser anunciado era eleitoreiro e termina com o secretário-geral do PSDB, deputado Eduardo Paes (RJ), acusando o governo de lançar "notícias demagógicas". No silêncio que se seguiu ao vídeo, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci – que iria discursar em seguida -, limitou-se a dizer: "Acho que não é o caso de comentar."

A assessoria do Palácio do Planalto considerou normal e apropriado o uso da reportagem. Assessores mais próximos do presidente, no entanto, esclareceram que Lula não pretendia que a reportagem toda fosse mostrada. Apenas havia gostado do gráfico exibido. A apresentação pegou o presidente e alguns de seus assessores de surpresa.

Para completar a seqüência de cenas estranhas, a platéia do evento reuniu um deputado na lista dos cassáveis, Pedro Corrêa (PP-PE), e o ex-deputado Ronivon Santiago, que perdeu o mandato há poucas semanas por corrupção eleitoral. Apesar de estar fora da Câmara, Ronivon ostentava ainda o broche de parlamentar.