Assim como em 1999, quando aconteceu literalmente, esta semana o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, caiu do cavalo. Se na ocasião anterior ele teve apenas uma queda de um animal quadrúpede, a “jogada de craque” desta semana com a qual ele acreditava estar peitando o governo federal, ao ameaçar paralisar o campeonato brasileiro caso não se abolisse o recém, sancionado Estatuto de Defesa do Torcedor, foi um verdadeiro tiro pela culatra.

Afinal, a nova lei, que em tese apenas ratifica pontos que os torcedores já haviam conquistado com a entrada em vigor do Código de Defesa do Consumidor, teve um lançamento com pompa e circunstância, mas seus “escribas” temiam que ela caísse no ostracismo.

Ao ameaçar a interrupção do campeonato, Teixeira trouxe à luz o texto da lei, expondo aos holofotes todos os direitos que dela fazem parte, além de abrir uma grande janela para que o ministro Agnelo Queiroz pudesse mostrar qual o caráter do governo que inicia.

Pior para Teixeira, que está vendo seu feudo podendo, pela primeira vez, ser devassado. Pelo texto da nova lei, ele e os presidentes das federações terão que contratar auditorias independentes e prestar contas ao fisco sobre o destino dos milhões de reais que perambulam pelos bastidores do futebol brasileiro.

Pior foi que Teixeira agora terá que arcar com a ameaça de paralisação com uns poucos que o cercam. O primeiro a pular do seu barquinho furado foi o presidente do Vasco da Gama, o inigualável Eurico Miranda. Ontem ele teria dito que foi de Teixeira e dos presidentes das federações que participaram da reunião da terça-feira à noite a responsabilidade de solicitar a paralisação do campeonato. “Os clubes não têm força para uma decisão como essa”, se esquivou Miranda.

Com caráter, apenas o mandatário do Fluminense, David Fischel, que prefere ser afastado por dez anos a se submeter aos rigores da lei.

Em resumo, o que o episódio nos mostra são dirigentes esportivos ainda despreparados para assumir a mesma responsabilidade que cada empresário brasileiro tem ao abrir seu negócio. Eles queriam é que a coisa seguisse como sempre foi, uma verdadeira “casa da mãe joana”, sem controle. E, na surdina, sonegando de todas as maneiras possíveis. Mas desta vez, os cartolas não encontraram do outro lado interlocutores para suas chantagens. O ministro Agnelo Queiroz exige que o estatuto seja respeitado desde já.

Agora fica a dúvida. Não seria melhor que os “comandantes” do futebol brasileiro interrompessem o campeonato e sofressem os rigores da lei? Afinal, estaríamos por dez anos livres de gente que nos últimos vinte vêm fazendo do futebol apenas uma forma de ganhar dinheiro fácil, sem se preocupar com desenvolver o esporte, transformando-o numa atividade financeira rentável e de geração de emprego e inclusão social.

Márcio Rodrigues (marcior@pron.com.br) é editor-adjunto de Esportes em O Estado.