Em sua última versão, o apagão aéreo tem São Pedro como culpado. A neblina, que nesta época do ano é comum aqui e alhures, foi a causa mais apontada para dar satisfações à insatisfeita e desapontada multidão que tem de fazer dos aeroportos morada improvisada. Não há vôos e os aviões não conseguem exercitar seu direito de ir e vir. E ninguém garante esse direito através de algum miraculoso habeas corpus.

Acontece que aeroportos fechados em razão de neblina também existiram em outros invernos. Mas neste o fenômeno transformou-se em um inferno, pois a crise nos céus do Brasil já completa uns dez meses e indigitar São Pedro como culpado soa como mais uma desculpa esfarrapada. Culpados já foram os controladores de vôo, a falta de paciência dos passageiros – que deveriam relaxar e gozar -, as companhias aéreas e até o desenvolvimento econômico (o maior desde a proclamação da República) que aumentou o número de passageiros ou candidatos a passageiros que se amontoam nos aeroportos.

Tudo isso tem colaborado para a caótica situação dos transportes aéreos no Brasil. E talvez um pouco do problema pudesse ser levemente aliviado se os irritados passageiros fossem adequadamente informados. Acontece que o fluxo de informações nem chega aos funcionários das empresas aéreas, em geral caixa de pancadas da multidão irritada que dorme no chão dos terminais e corre o risco de indigestão de tanto comer barrinhas de cereais que as empresas aéreas distribuem para tentar adoçar o humor amargo de seus clientes impacientes.

No estágio atual do caos nos céus do Brasil surgem novos ingredientes para elucidar o misterioso apagão aéreo. Um deles seria o ?overbooking?, ou seja, a venda de mais passagens do que o número de lugares existentes nos aviões. Este é um problema que acontece aqui e em todo o mundo porque as companhias não querem arcar com o prejuízo dos ?no show?, ou seja, a ausência de passageiros que compraram passagem, tiveram seus lugares reservados e, na hora do vôo, não aparecem. O problema pode ser solucionado, desde que haja uma regulamentação adequada e inteligente.

Mas as companhias aéreas disseram um não às autoridades do governo quando estas quiseram impor redistribuição de vôos, aumento ou diminuição de freqüência de partidas em determinados horários e outras medidas que influem diretamente no seu faturamento. A resposta dos empresários foi porque não estão em condições de perder receitas enquanto o governo sonega recursos para a melhoria do sistema. É inevitável dar uma certa dose de razão às empresas aéreas. Vemos todos os anos e em todo o mundo empresas aéreas dando prejuízo, falindo ou sendo vendidas porque é um negócio encantador esse de voar com o mais pesado do que o ar. Mas é um setor que demanda imensas doses de capital, leva a despesas enormes e tem uma lucratividade duvidosa.

As companhias, os controladores de vôo e agora a CPI do Apagão do Senado apontam o Ministério da Defesa, a deficiência técnica de equipamentos, a falta de recursos, a subestimação do crescimento do tráfego aéreo e a autorização de linhas aéreas acima da capacidade da infra-estrutura aeronáutica do País como algumas das causas da crise. Em suma, estão chegando à conclusão de que as causas do apagão aéreo são muitas e nem São Pedro escapa do rol de culpados. Mas é hora de admitir que o principal culpado é o governo, que vem sonegando recursos para o setor e, nos últimos anos, praticamente só investiu na construção de belos terminais. E pouco ou quase nada na pavimentação do sistema que demanda mais controladores de vôo, radares, sistemas de rádio e outros equipamentos sem os quais voar se torna uma aventura cansativa e cada vez mais perigosa.