Há quase dois anos e meio, um menino brasileiro foi seqüestrado por um tio em Taiwan e até agora as autoridades brasileiras pouco fizeram para trazê-lo de volta. Iruan Ergui Wu, de 8 anos, nasceu em Porto Alegre, filho da brasileira Maria Tavares Ergui e do chinês Teng-Shu Wu, capitão de um barco de pesca taiwanês.

Em 1998, a mãe de Iruan morreu, vítima de leucemia, e a criança passou a ser criada pela avó, Rosa Leocádia Ergui. Dois anos depois, o menino e a avó passaram a morar em uma casa em Canoas, que foi comprada pelo marinheiro, em nome do filho, para que o menino ficasse no Brasil. Teng-Shu e Iruan se encontravam duas vezes por ano em Montevidéu, onde o marinheiro morava.

Em março de 2001, Teng-Shu pediu à avó, que havia recebido dele a tutela da criança, para levar o filho a Taiwan. Rosa permitiu a viagem, com a condição de que Iruan voltasse em duas semanas para retomar as aulas. Uma semana depois de chegar com o filho a Taiwan, o marinheiro morreu de forma misteriosa enquanto dormia. Seu irmão, Huo-Yen Wu, impediu a volta do sobrinho ao Brasil, alegando que era tradição local e “um desejo do pai”.

A avó entrou com ação na Justiça gaúcha pedindo um mandado de busca e apreensão para trazê-lo de volta, mas a chancelaria de Taiwan recusou o pedido, recomendando a Rosa que entrasse com processo na Justiça local. A família brasileira de Iruan vem ganhando as ações em todas as instâncias, mas a criança ainda não voltou ao Brasil. Insensível ao drama da avó e demais parentes do menino, a diplomacia brasileira, apesar das promessas de “empenho” do Itamaraty, limitou-se a dar apoio jurídico no caso.

Há menos de dois meses, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados reuniu-se e decidiu pedir ao Ministério das Relações Exteriores a suspensão dos vistos dos representantes de Taiwan no Brasil. “É uma situação de seqüestro internacional que as autoridades brasileiras têm o dever de resolver”, definiu a deputada Maria do Rosário (PT-RS), presidente da Subcomissão Permanente da Mulher, da Criança e do Adolescente, ligada à Comissão de Direitos Humanos. No site do Ministério das Relações Exteriores (www.itamaraty.gov.br), não há notícias sobre a medida solicitada pelos parlamentares. A notícia mais recente sobre o caso foi uma nota sobre a “assistência consular” à família de Iruan. Por enquanto, nenhuma atitude concreta foi tomada.

Um dos obstáculos à solução do caso é a situação de Taiwan, ilha também conhecida como Formosa ou China Nacionalista. O Brasil, que mantém relações com a República Popular da China, não reconhece a independência de Taiwan, que é considerada uma “província rebelde” pelo governo chinês. Os taiwaneses só têm um escritório de representação comercial no Brasil. A suspensão do visto desses representantes e um eventual embargo comercial aos produtos de Taiwan poderiam ser medidas eficazes para apressar a volta de Iruan.

Ari Silveira

(ari@oestadodoparana.com.br) é chefe de Reportagem de O Estado.