Quando candidato à Presidência da República, Lula atacou duramente o mercado, dando a entender que eram entidades trabalhando de propósito contra sua eleição. Como discurso, pode ter tido os seus efeitos, pois mercado é algo de difícil entendimento para o leitor comum. Parecia que alguns homens e instituições se uniam para boicotar a candidatura petista, tomando decisões e traçando rumos que a enfraqueciam ou até indicavam sua rejeição.

Mercado é quase indefinível. A oferta e a procura talvez sejam a sua síntese, mas é um emaranhado de dados econômicos, expectativas, adivinhações, especulações e interesses que ganham formas subjetivas difíceis de ser definidas e entendidas.

O que se pode, com muita argúcia e uma gama enorme de informações e observações, é aquilatar as tendências do mercado. Ele pode indicar crescimento econômico, inflação crescente, alta nos juros ou o inverso.

No momento, vésperas de eleições municipais no Brasil, o governo petista está pisando em ovos. Aproveitou índices positivos de crescimento do PIB para ganhar votos e agora vem o mercado com previsões de crescimento econômico ao custo de maior inflação e juros mais altos. A próxima reunião do Copom do Banco Central é ansiosamente esperada, pois as tendências de alta da inflação, dentro das políticas até hoje praticadas pelo BC, indicam juros em alta ou, no mínimo, do mesmo e elevado tamanho.

Essas perspectivas anulam a euforia do PIB mais elevado e suas influências positivas nos resultados eleitorais almejados pelas forças situacionistas. Se a inflação subir sensivelmente, o governo corre o risco de uma fragorosa derrota no próximo pleito. De PIB, o eleitor pouco entende. Mas sobre preços cada vez mais altos nos supermercados, é doutor.

A solução procurada, emergencial, é heterodoxa e já está criando desentendimentos dentro do próprio governo. Por proposta da CUT, que entusiasmou até o presidente Lula, se está falando em um pacto social. Pacto que seria um entendimento no qual o empresariado seguraria os preços; os trabalhadores poriam o rabo no meio das pernas e parariam com suas reivindicações salariais; os bancos abririam suas burras para mais e novos financiamentos e o governo pararia de aumentar a carga tributária ou até a reduziria.

O ministro da Fazenda, Antônio Palocci Filho, mesmo havendo a aprovação de Lula, desde logo mostrou-se contra, insistindo que a fórmula acertada do crescimento é a que vem seguindo, ou seja, apertado ajuste fiscal. Mas o intocável José Dirceu, chefe da Casa Civil recém, destituído da missão quase impossível de conseguir parcerias entre o governo e a iniciativa privada para obras de infra-estrutura no País, já se pronunciou publicamente contra. E as demais centrais sindicais, à exceção da proponente, CUT, voltaram-se contra o pacto, entendendo que o trabalhador é que sairá perdendo. Enfim, ninguém está se entendendo, nem mesmo dentro do governo.

Acresce que não há ambiente para um pacto social e se ele é a fórmula para que as forças situacionistas não percam as eleições esmagadas sob uma inflação crescente, pode-se prever que os candidatos situacionistas correm sérios riscos de dançar.

Já não dá mais para pôr a culpa no mercado, pois, mesmo que o eleitorado não entenda muito bem de que se trata, já consegue conferir suas previsões com os fatos. E o medo da inflação não é mais um simples temor. Ela está aí, votando contra o governo.