O presidente nacional do PTB e ex-caixa da campanha de Lula, deputado federal paranaense José Carlos Martinez, quis fazer uma gentileza com o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, e o presenteou com um relógio Rolex. Trata-se de um dos mais caros relógios do mundo, objeto de desejo dos ricos e também dos ladrões. Talvez a provar a assertiva de Joãosinho Trinta, o famoso carnavalesco, de que “quem gosta de pobreza é intelectual” e que pobre prefere o luxo, o presente saiu de um trabalhista para outro trabalhista. O presenteante é um empresário e político, dirigindo um partido voltado programaticamente para a massa trabalhadora, e o presenteado, um membro ilustre do PT, ex-exilado em Cuba, com uma longa e penosa trajetória na clandestinidade, por suas idéias socialistas. Note-se que o presente não foi nenhum martelo ou foice, sem nenhuma referência ao símbolo do extinto PCB. Nem uma foto do até hoje admirado e até amado Che Guevara. Mas um símbolo do luxo, da riqueza, da burguesia, o que atesta que o carnavalesco tinha toda a razão.

Mas deu “mico”. Dirceu recebeu o presente e, segundo relata, foi dormir. Só no dia seguinte lembrou-se que, como ministro, está proibido por lei de receber qualquer presente com valor superior a R$ 100,00. E um Rolex vale algo em torno de R$ 12.000,00, o equivalente a 48 salários mínimos. Pelas normas legais, se o presente ultrapassa os R$ 100,00, tem de ser devolvido ou doado à União. O ministro da Casa Civil, José Dirceu, apressou-se em doar o relógio ao programa Fome Zero, pois passou a ser uma batata quente em suas mãos.

Aí o “mico”. O relógio foi para avaliação, certamente para ser vendido ou leiloado em favor dos famintos, e descobriu-se que era falso. Rolex falso a gente compra ali no Paraguai, na rodoviária de São Paulo ou em China Town, em Nova York, por uma ninharia. Dirceu comunicou o fato ao deputado Martinez, que recebeu o relógio de volta, desculpou-se acanhado, revelando que o comprou de “uma pessoa sem importância” de Curitiba, por R$ 5.000,00 e que, de raiva, jogou o Rolex no mato. Lembrando que “quem compra mal, paga duas vezes”, foi à melhor relojoaria de Curitiba e adquiriu um Rolex verdadeiro, por R$ 12.000,00. Deu-o ao ministro, que, por sua vez, encaminhou a preciosa peça ao Fome Zero.

Neste governo, voltado para os trabalhadores e para os problemas sociais, uma estória como esta não é das mais adequadas. Um Rolex de ouro não combina com Fome Zero, desemprego e outras lutas por justiça social, abraçadas pelo governo Lula e seus aliados. Não se espera que a turma do novo governo ande esfarrapada e comprando em lojas de R$ 1,99, mas Rolex, Ferrari, Maserati e dúplex de cobertura destoam.

Mas, como diz o ditado, o uso do cachimbo faz a boca torta e todos podem defender-se proclamando que o desejo dos situacionistas é que todos os brasileiros um dia tenham o direito de ter o melhor. Que poderão igualar-se por cima, mostrando que quem gosta de pobreza é, de fato, intelectual. Os pobres preferem o luxo, como o carnavalesco provou e comprovou em tantas escolas de samba que dirigiu na avenida. O perigo é que o conforto e o luxo costumam levar a coisas menos recomendáveis, como a exibição, a preguiça, os preconceitos sociais e tudo o mais contra o que se luta hoje, para tornar este País um território onde haja justiça social.