A imprensa internacional reservou largo espaço à decisão do Supremo Tribunal Federal brasileiro de processar quarenta pessoas, entre elas ex-ministros de Estado, ex e atuais deputados federais, dirigentes do PT e outras figuras influentes, no processo conhecido como o do escândalo do mensalão. Normalmente, os jornais dos principais países do mundo, como o The New York Times, dos Estados Unidos; El Pais, da Espanha, ou o Financial Times, da Grã-Bretanha, resumem as notícias sobre o Brasil ou outros países emergentes em umas poucas linhas. Não obstante tenhamos crescente importância política e econômica, ainda somos um país mais próximo do subdesenvolvimento que do mundo desenvolvido e, situado na América do Sul, hemisfério marcado pela pobreza, não raro somos ignorados. No mais, a corrupção na América Latina, bem como sua história de ditaduras soam para os seus leitores como assuntos corriqueiros que não chegam a chocar.

O Brasil, entretanto, tem conseguido nos últimos anos um espaço mais amplo na mídia internacional em razão primeiro de suas potencialidades econômicas num mundo carente e em risco de ver-se, de repente, sob perigosa escassez de petróleo. Somos detentores de tecnologia para produção de energia alternativa limpa. Além do mais, temos uma imensa área territorial e vastas florestas, a começar pela Amazônia. O mundo nos vê ou como o pulmão do globo terrestre ou como vilão em potencial do esgotamento das reservas de oxigênio do planeta.

Estamos, de outro lado, no fulcro do surgimento de uma nova força política de esquerda, que de início tinha Lula como seu mais destacado líder até que surgiu a figura do ditador travestido de presidente da Venezuela Hugo Chávez dando demonstrações espetaculosas de ousadia. E tomando de Lula essa liderança.

O The New York Times inicia matéria sobre a decisão do STF dizendo que ?um escândalo de corrupção que paira como uma nuvem negra sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva há dois anos intensificou-se nesta semana, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil decidiu em votação submeter o ex-ministro-chefe da Casa Civil a julgamento devido a acusações de corrupção?. Trata José Dirceu como o mais próximo aliado do presidente Lula a ser julgado no esquema que envolvia a compra de votos. E lembra que o STF, por nove votos favoráveis e um contra, aceitou a acusação de que Dirceu seria ?o líder da organização criminosa?. Para o importante jornal norte-americano, aquele que era considerado o arquiteto da ascensão de Lula ao poder renunciou ao gabinete em junho de 2005, após ter sido acusado de liderar um esquema para pagar membros do Congresso a fim de que estes apoiassem o Partido dos Trabalhadores.

Vê-se que dá destaque à figura e à atuação de Dirceu e sua ligação estreita com Lula, situação que o presidente tenta minimizar e Dirceu indiretamente afirmar, ao considerar o processo que lhe movem como uma tentativa de desestabilização do governo.

Destaca o jornal nova-iorquino que esta foi a primeira vez que o STF votou favoravelmente à imposição de penas criminais contra autoridades políticas do alto escalão. ?Não há dúvida de que este é um momento histórico para o tribunal?, afirmou ao jornal a analista e professora de ciências políticas carioca Lúcia Hippolito, para acrescentar que ?os dias de impunidade para os privilegiados parecem ter acabado?. O The New York Times relembra o caso Fernando Collor de Mello, que perdeu a presidência, mas na Justiça acabou sendo absolvido. O El País, da Espanha, dá o mesmo destaque ao processo aberto, ressaltando o papel essencial de José Dirceu e suas ligações com o presidente Lula e com o PT. O mesmo fez o Financial Times, de Londres, que destaca a figura de José Dirceu, sua importância no PT e para o governo Lula. Ouvindo o consultor político José Luciano Dias, de Brasília, registra a importância que dá à decisão do STF: ?Mais que em qualquer outro caso anterior, este ajudará a definir se as autoridades brasileiras estão ou não acima da lei?.