Foto: Arquivo/O Estado

A constante busca por novidades, muitas vezes exóticas e inócuas, tem perturbado o trabalho com a formação de leitores.

São muitos meus anos de trabalho com formação de professores para a leitura e a literatura. A angústia que toma conta dos docentes toda vez que o assunto formação do leitor vem à tona ganha dimensões dramáticas ano a ano. A barreira que se antepõe ao trabalho com a leitura é muito mais montanhosa e íngreme do que a estatura humana do professor. As causas dessa batalha são tantas e tão diversificadas que a vitória parece estar sempre do lado contrário ao da sala de aula.

Desinteresse, bibliotecas defasadas ou inexistentes, contexto social adverso, crise econômica a encarecer os livros, competição desigual com a mídia, formação profissional lacunar ou equivocada. O cenário ganha dimensões de pesadelo. No meio dele, debate-se o professor entre apelos, novas tecnologias, metodologias de ocasião, como dietas de moda, e, sobrepondo-se a tudo, a pressão vinda das estatísticas sobre leitura, muito semelhantes ao PIB brasileiro, e às expectativas de mudança, isto é, cada vez mais baixas e desacreditadas.

Qualquer conferência, curso ou oficina contempla sempre perguntas que comprovam essa angústia: Como fazer? Que sugestões para a melhoria? Qual o método mais eficaz? E nessa toada encadeiam-se mais e mais questões demonstrativas do estado atônito dos docentes em busca de saídas.

A leitura enquanto ação voluntária e solitária descarta, em princípio, qualquer outra mediação que não seja o texto. O diálogo leitor-autor precisa exclusivamente do pensamento crítico e da capacidade de traduzir palavras em idéias. Toda metodologia visa facilitar esse diálogo, daí a mediação do professor, ou qualquer pessoa que exerça esse papel. Mediação que passa longe do sentido de autoridade, censura ou voz da verdade.

Entre as dúvidas do professor e a busca de segurança em respostas, atividades e métodos milagreiros, aparece uma única certeza: a de que as respostas são e serão inconclusas, relativas, abertas.

Afirmamos atualmente como verdade que a cultura de nosso tempo é fragmentada, questionadora, destruidora de mitos e certezas. Por que só a escola deveria ser o lugar de respostas?

No entanto, a busca por novidades, muitas vezes exóticas e inócuas, tem perturbado o trabalho com a formação de leitores. Vera Teixeira Aguiar, em palestra recente, dizia que a maioria dos professores em atividade na escola foi formada na velha metodologia. Muitos sobreviveram, alguns se tornaram leitores proficientes e competentes. Não difere muito dos resultados obtidos pela escola de nossos alunos nesse últimos anos.

Frank Smith, em Leitura significativa, afirma que ?o dilema do professor ao selecionar as técnicas do ensino provavelmente não será resolvido pela descoberta de um método novo e ideal para ensinar todas as crianças. Das enormes despesas de empresas comerciais e órgãos governamentais na busca de uma tecnologia do ensino da leitura que prove ser infalível e, de preferência, à prova de professores, a única conclusão que podemos tirar é a de que nada poderia, provavelmente, ser inventado que seja significativamente melhor ou mesmo diferente dos métodos e materiais que sempre estiveram à nossa disposição, mesmo se eles estiverem adaptados ao uso em computador ou em vídeo. As crianças têm aprendido a ler, durante séculos, sem o auxílio da tecnologia?.

Não estamos esquecendo de tratar a formação de leitores com soluções simples, como o exemplo que damos lendo sempre e muito, como o diálogo franco sobre interesses pessoais, memórias de leitura e objetivos do ato de ler? Não estamos esquecendo de que os leitores têm direitos (o de não ler um livro até o fim, por exemplo) e deveres (o de trabalhar arduamente na tentativa de compreender mesmo os textos difíceis) e merecem saber que a leitura ?não é ler qualquer coisa, mas saber distinguir entre leitura questionadora e alienante, preferir o peso da autoridade do argumento de bons autores, desconstruir leituras anteriores para que novas e inovadoras surjam no horizonte, reconstruir desafios sob o signo da dúvida e da incerteza, sobretudo superar-se como leitor e autor, sempre?, como afirma Pedro Demo em Leitores para sempre.

Talvez porque os professores prefiram iludir-se com a garantia de que apenas os métodos formarão efetivamente o leitor, em lugar de cultivar a dúvida como critério de crescimento pessoal e profissional, e apresentarem-se como leitores competentes em todos os momentos da aprendizagem, exemplos a serem seguidos.