A morte do embaixador brasileiro Sérgio Vieira de Mello no Iraque, há uma semana, deveria merecer um tratamento mais sério e respeitoso da comunidade diplomática internacional. Lamentavelmente, porém, não é o que tem acontecido. O medo, a conveniência e o cinismo têm levado o corpo diplomático da ONU, inclusive o secretário-geral, Kofi Annan, a apresentar leituras fragmentadas e equivocadas sobre as causas do atentado que vitimou o diplomata brasileiro.

Passados sete dias desde que o representante especial da ONU no Iraque foi morto, a Organização das Nações Unidas continua sustentando a posição cômoda (e óbvia) de responsabilizar apenas o terrorismo pelo atentado. É evidente que o brasileiro foi morto por extremistas. A questão fundamental, porém, não é essa. O mais importante é a ONU saber o que tem levado os grupos radicais islâmicos a adotar esses atos de extrema violência, e envidar todos os esforços para combater a origem do problema.

A resposta a essa pergunta, que a comunidade diplomática internacional insiste em ignorar, é conhecida. É claro que o pano de fundo desse acirramento da violência no Oriente Médio é em essência, e em última instância, basicamente o mesmo: os problemas geopoliticos que afetam toda a região, particularmente a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, há décadas.

Mas não há nenhuma dúvida de que a política externa dos Estados Unidos tem papel crucial no processo de acirramento da violência não apenas no Iraque, mas também no Afeganistão. A política de “terra arrasada” da Casa Branca, que continua repetindo a fórmula de utilizar a força bruta contra o terrorismo, não poderia resultar em outra coisa a não ser em bestialidades como as que vitimaram o brasileiro. Este é um problema que transcende em muito o conflito na Palestina e os efeitos do regime sanguinário de Saddam Hussein.

Contudo, em nenhum momento o organismo que deveria zelar pela paz mundial teve a coragem de adotar uma postura dura contra a posição belicista, reacionária e inútil que o presidente George W. Bush vem adotando em relação ao problema. Prova disso foi o fato de até o administrador americano no Iraque, Paul Bremer, ter admitido que centenas de terroristas internacionais estão infiltrados no país desde a queda de Saddam, inclusive integrantes do grupo islâmico Ansar al-Islam, que teria ligações com a rede Al-Qaeda, responsável pelos ataques de 11 de setembro de 2001 contra os Estados Unidos. Se a informação for verdadeira, só confirma a inutilidade das ações revanchistas dos EUA contra o Afeganistão.

Ao invés de apenas identificar os autores do atentado com o título genérico de “terroristas”, o que não ameniza a perda provocada pela morte do brasileiro, a ONU deveria ter a coragem de exigir da Casa Branca uma mudança radical da sua política externa, preferencialmente, com a retirada imediata das tropas americanas e sua substituição por uma força de paz efetivamente neutra, seguida do afastamento imediato do governo dos EUA como interlocutor dos conflitos na região. Se isso não significa a solução imediata do problema, é seguramente o caminho necessário para a busca da paz.

Aurélio Munhoz

(politica@parana-online.com.br) é editor-adjunto de Política de O Estado do Paraná e mestrando em Sociologia Política pela UFPR.