Cada eleição de per si é episódio que, necessariamente, guarda relação com fatos passados e, de outro lado, com coisas que podem vir a ocorrer depois. Um evento de natureza política, pois, nunca é isolado ou deixará de ter repercussões nem sempre confortáveis para os protagonistas. Ora, é essa dicotomia inerente ao processo político que o torna fenômeno apaixonante para muita gente.

Um dos pressupostos marcantes da democracia é a alternância do poder, que os sábios etiquetam como o exercício da sabedoria do povo em alijar dos cargos majoritários, depois de uma administração ruinosa ou ineficiente, os políticos que perderam a credibilidade.

Todavia, não se deve descartar o fato de que a eleição sempre traz uma carga de lições, às vezes muito duras, que precisam ser cuidadosa e inteligentemente escrutinadas, para que se possam capitalizar ganhos e vantagens, sem desprezar a inevitável busca de argumentos racionais que esclareçam as causas do suposto malogro e apontem rumos para empreender a recuperação do terreno, se é que tal ação é possível.

O raciocínio é válido para sepultar de vez o desgastante e caduco recurso, não raro originador de ofensas pessoais e cizânias irreparáveis, da discussão intestina que se instala entre os perdedores, pressionados pela ingente, mas irrazoável determinação de fazer a execração pública dos culpados presuntivos.

Em última instância, se alguém é culpado, este ser desprezível é não outro senão o eleitor, que no pleno exercício da soberania decide não interromper um ciclo que considera satisfatório e acertado, ou simplesmente opta pelo afastamento sumário daqueles que se deixaram contaminar pela arrogância do poder, certa vez descrita pelo secretário de Estado Robert McNamara como o espasmo terminal de políticos que se acham superiores aos plebeus que têm horror a desodorante.

Assim é que as eleições de São Paulo e Porto Alegre, as que mais doeram na consciência política do PT, oferecem imenso cabedal para reflexão dos estrategistas e planejadores do partido, e de quantos se interessam por esta fascinante atividade e seus repentinos desdobramentos.

As prefeituras de São Paulo, a maior cidade da América do Sul, capital do estado que sozinho é quase meio PIB nacional, e a de Porto Alegre, com seu leque de políticas públicas insubmissas ao modelo imposto pelo neoliberalismo, tanto que foi escolhida para sediar o Fórum Social Mundial – que dificilmente ficará por lá -, constituíam para o PT um privilegiado showroom da idealização programática do governo central.

A não-reeleição de Marta e Raul Pont, personagens cintilantes da constelação de quadros que engrandeceria qualquer partido, não se deu pelas fofocas sobre a nova namorada do senador Eduardo Suplicy, ou porque os mais empedernidos chimangos deixaram de lado o fascinante visual do pôr-do-sol no Guaíba para, com seus ponchos e cuias de mate, armar o bivaque cívico no Parque da Redenção.

As razões são outras e devem ser buscadas no ilimitado descrédito que a maioria da população atribui hoje aos governos, a começar pela União, cada vez mais distanciados da responsabilidade de apresentar soluções que não sejam placebos midiáticos, para os problemas crônicos que continuam a afligir milhões de pessoas. Um governo que se estriba no superávit primário de US$ 75 bilhões (metade do que precisa para pagar os juros anuais da dívida, que logo chegará a US$ 1 trilhão), produzido a custa dos empregos, moradias, hospitais, escolas e segurança da patuléia.

A conta da dívida social espetada nas costelas do morador das covancas das grandes metrópoles, “lá onde o vento faz a curva e o torcedor das gerais grita sem influir no resultado”, no dizer genial de Plínio Marcos, legítimo rapsodo da vida bandida das favelas, mocambos e desvãos onde se escondem as vítimas da exclusão social, a decisão é irrevogável, não será paga jamais pela diminuta classe empoleirada no alto da pirâmide. Onde o Brasil pensa, segundo embotado avestruz nordestino que desfila sua incompetência treinada no Congresso Nacional.

O champã francês borbulhou adoidado nas festas que saudaram a vitória do tucanato, mas o requinte se restringiu aos apartamentos de cobertura, condomínios fechados, palacetes e ilhas particulares onde a imaculada brancura dos colarinhos e outros brilhos não é mera coincidência.

Ivan Schmidt é jornalista.