Não foi uma grande vitória, dessas de lavar a alma, mas serviu para cumprir a finalidade Ä colocar o Brasil no embate final, para a disputa da taça mais cobiçada do mundo esportivo. De norte a sul, o País vestiu-se de verde-amarelo, enrolou-se na bandeira tantas vezes ultrajada, fez a festa merecida. Da favela aos condomínios encouraçados pela tecnologia eletrônica de última geração, da roça e do campo às tribos indígenas semi-aculturadas, a nação sentiu-se una, irmanada pela mesma linguagem e perseguindo o mesmo objetivo. Cada brasileiro no exterior foi transformado no embaixador da esperança. Agora é só passar pela Alemanha e está tudo resolvido.

Foram necessários alguns dias e outras tantas noites de vigília. Do outro lado do mundo, o programa da Copa inverteu relógios, fez de algumas madrugadas intermináveis noites, em que a primeira obrigação passou a ser olhar a televisão. Aprendemos geografia, história, fomos contagiados pela alegria do povo amarelo vestido de vermelho, enquanto descobrimos que o futebol também está irremediavelmente atrelado aos passos da inexorável globalização. Como em todas as atividades, o difícil ato de julgar originou repulsas, fabricou Ä dizem os vencidos Ä resultados imprevisíveis no início do certame.

Olé, Brasil! Valeu a prudência da pouca fé inicial e a persistência quase silenciosa até a jogada final. Em cada janela repousa agora uma esperança nova, um grito de alegria brota da garganta de amargos torcedores, céticos apostadores e inveterados críticos. Não há risco-Brasil aqui, para nossa felicidade. Afinal, essa paixão ainda é nacional. E faz a diferença num terceiro mundo onde a volatilidade da moeda é ditada pelos caprichos impiedosos dos atletas do capitalismo selvagem.

Resta, é verdade, um derradeiro passo. Mas agora já não valem os maus-humores de antes. E no tudo ou nada do embate final teremos a garra dos destemidos, a força extraordinária dos heróis temperados no infortúnio, independentemente daquela questão inicial mesquinha, quando se discutia o prêmio prometido pela CBF. Sim, o caneco pode ser nosso e esse é o maior prêmio. Quanto pagaria a Espanha, a Itália, a Argentina e a própria Coréia ou mesmo a França, o Paraguai ou o Japão? Quanto dariam os Estados Unidos para, também nos gramados do oriente, embandeirar sua hegemonia cada vez mais contestada?

Olé, Brasil! Essa campanha traz, com o caneco do pentacampeonato assim próximo, um pouco mais de ânimo para a construção possível de uma nação mais igual. Mostra que a política das coisas vitais necessariamente não precisa ser realizada de cara feia, dedo em riste, discurso desagregador ou desaforado. O Felipão apostou apenas no clima de equipe, na emulação de um grupo dentro do princípio da igualdade e do respeito. Astros de carne e osso não existem.

Os resultados até aqui exibidos mostram, também, que o conceito de superioridade atribuído às nações em tantas oportunidades da história está redondamente furado. Nenhum povo é menor diante dos demais. A verdadeira riqueza Ä mostra esta primeira Copa do século XXI encurralado pelo terror – não está na acumulação de bens que terremotos, guerras ou a praga dos investidores internacionais podem golpear em segundos. Além da linha do horizonte do capital teleguiado há mais razões para um dar-se as mãos sem a exigência da troca, da barganha e da vantagem. O caneco está na iminência de ser nosso. Mas podia ser de qualquer outro.