Brasília – Muitos brasileiros podem ser portadores do vírus da hepatite C sem saberem. O alerta é do presidente do Grupo Otimismo de Apoio ao Portador de Hepatite, Carlos Varaldo. A doença, segundo ele, é subnotificada, ou seja, há mais casos de hepatite do que confirmam os dados do governo. Para Varaldo, o governo deveria realizar mais campanhas que estimulem a detecção precoce da doença.

?Até hoje não existiu uma campanha nacional por parte do governo que alerte sobre a necessidade de determinados grupos de pessoas realizarem o teste da Hepatite C. Isso é uma coisa que falta, já que as únicas campanhas foram feitas pela sociedade civil?, reclama.

A coordenadora do Programa Nacional de Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Gerusa Figueiredo, concorda com a reclamação. Ela afirma que uma única campanha sobre a doença foi realizada em 2004, mas apenas em mídias educativas. Segundo Gerusa, a realização de mais campanhas é uma das demandas do programa para 2007: "Acho que precisa fazer, defendo que se faça?.

Em outubro do ano passado, o grupo Otimismo realizou um levantamento com 1.650 pessoas portadoras de hepatite C, perguntando onde e de que maneira elas haviam detectado a doença. A pesquisa mostrou que 66% haviam feito o teste num laboratório particular, 20% descobriram quando foram doar sangue e apenas 14% souberam da doença pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

?A conclusão é que aquelas pessoas que têm recursos, que têm um plano de saúde, que podem pagar exames, estão sendo detectadas; e as pessoas com menos recursos, mais carentes, estão doentes?, afirma Varaldo.

Para a médica Gerusa Figueiredo, o fato de o número de notificações ser baixo não significa que não vai haver investimento correspondente à gravidade da doença. ?A notificação, apesar de obrigatória, acaba tendo algumas dificuldades, e isso não é para hepatite, é para qualquer doença que não tenha sintomas clínicos?, explicou.

A hepatite C é uma doença causada por vírus, transmitida pelo sangue. Assim como o diabetes e a hipertensão, não tem sintomas. É necessário um teste específico, chamado Anti-HCV, para que as pessoas saibam se são portadoras da doença.

De acordo com o grupo Otimismo, as novas infecções devem ocorrer principalmente entre os usuários de drogas, cerca de dois terços dos casos. O restante poderá infectar-se em procedimentos como tatuagem, piercing e manicure. ?Aquele alicate de manicure, aquele instrumento de manicure que cortou uma pessoa, se cortar outra nos próximos dias, poderá transmitir a hepatite C?, ressalta a médica, lembrando que o ideal é que cada pessoa tenha seu conjunto de instrumentos.   

Se não for detectada precocemente, a doença pode evoluir para cirrose ou câncer de fígado. Nesse estágio, a única chance de cura é realizar um transplante de fígado. Estatísticas do Ministério da Saúde mostram que existem 6.700 pessoas na lista de espera para um transplante de fígado, das quais 1.400 provavelmente vão morrer antes de conseguir o órgão. Destas, 70% são portadoras da hepatite C.