O caminho do dinheiro do mensalão – ou, como preferem puristas pouco puritanos do PT e das bases situacionistas, grossas quantias para formar caixa 2 e sustentar campanhas eleitorais – é conhecido. Sabe-se que saía de bancos, emprestado a um publicitário mineiro, com aval e conhecimento de dirigentes da cúpula do PT, e era entregue a líderes da agremiação de Lula e a políticos e partidos que se vendiam para engrossar as hostes situacionistas. Desconfia-se, mas não se prova, que na relação dos que receberam há muito mais gente do que a já desmascarada e a que acabou confessando a corrupção política passiva. E tudo passava pelo tesoureiro do PT, o sinistro professor goiano Delúbio Soares, manipulador da dinheirama toda, que teria o poder supremo de dizer a quem deveria ser entregue. Aí, desconfia-se que o tesoureiro está bancando boi de piranha, escondendo os que com ele partilhavam responsabilidades.

A sociedade e a banda honesta dos políticos brasileiros (eles existem, por incrível que pareça) querem o aprofundamento das investigações, para que todos os que entraram nessa maracutaia sejam expostos e, se possível, punidos, a despeito da leniência de nossas leis, sejam político-eleitorais, sejam criminais. Há uma outra parcela que prefere um acordo em que rolariam duas ou três cabeças somente, para tapear a nação, e o resto dos malandros ficaria impune, saboreando uma imensa e cheirosa pizza.

Por enquanto, esta última hipótese parece a mais provável, apesar dos discursos em contrário, alguns indisfarçavelmente demagógicos. O presidente Lula fala em punir os culpados, sejam lá quem forem, ao mesmo tempo em que dá cobertura a muitos deles, blinda auxiliares e ?companheiros? que considera importantes e até preserva a turma apadrinhada de Severino Cavalcanti, o receptor do mensalinho.

As negociatas foram tantas que alcançaram estatais, onde indicados da banda situacionista negociavam cargos e concorrências fraudulentas, desviando dinheiro para a ?causa? política. Por isso, tem-se a impressão de que as investigações estão apenas gatinhando, pois os culpados negam e os acusadores, no interesse de possíveis acordos, sonegam. Essa impressão é reforçada pelo fato de que todos os dias surgem novos escândalos nos mesmos ou outros sítios.

Falta esclarecer, entretanto, algo essencial: qual a verdadeira origem de tanto dinheiro? Os bancos envolvidos não tinham capacidade para operações de tão elevado porte e com garantias frágeis, como avais de um publicitário e de políticos do PT. Ou do próprio PT, que financeira (e moralmente) está falido. Seria dinheiro dos fundos de pensão? Até agora nada foi provado. Seria de origem estrangeira, inclusive de governos, como o de Taiwan? Há fundadas suspeitas, principalmente porque já se revelou que doleiros trabalharam muito nesse negócio e grandes lotes de dinheiro vieram mesmo lá de fora, de contas secretas, algumas em paraísos fiscais. O doleiro Toninho da Barcelona confirma. Ele está preso por lavagem de dinheiro.

Para fechar essa história, é preciso descobrir a origem do dinheiro e, se possível, completar a lista de seus beneficiários. Até o momento, só se sabe de uma coisa: houve corrupção por atacado e o governo, Executivo e Legislativo, está mergulhado até a cabeça nesse mar de lama.